Contato

sábado, 2 de agosto de 2014

O reencontro da águia com a galinha

(Em azul, trecho de “A Águia e a Galinha” de Leonardo Boff. 
Na sequência, a continuação livre escrita por mim)


Numa tarde sonolenta de verão, voltava um criador de cabras, do alto de uma planura verde, na floresta atlântica do norte do estado do Rio de janeiro. Ao pé da montanha por onde passava, encontrou, de repente, um ninho de águias todo estraçalhado. Semicoberta de gravetos, uma jovem águia, ferida na cabeça. Parecia morta, toda ensangüentada. Era uma águia rara, a águia-harpia brasileira, ameaçada de extinção.

Recolhendo-a com cuidado pensou:

Vou levá-la ao meu vizinho que é um amante de pássaros. Gosta deempalhar gaviões, garças, patos selvagens e veados. Talvez ele queira empalhar este filhote de águia!

E assim fez, pois o caminho passava junto à casa do empalhador. Este acolheu alegremente o criador de cabras. Ficou admirado por se tratar de uma águia-harpia, rara naquela região. Encheu-se de pena dela. Também ele supôs que estivesse morta. Colocou-a ternamente debaixo de uma cesta. Amanhã vou empalhá-la, matutou resignadamente consigo mesmo. Embora pequena, vai ser uma ave soberba depois de empalhada, enchendo de grandeza qualquer sala!

No dia seguinte, teve grata surpresa. Ao retirar o cesto, percebeu que a águia se mexia levemente. As garras, ainda novas, estavam fechadas. Havia feridas em várias partes do corpo. A águia estava cega. Novamente sentiu pena da jovem águia. Por misericórdia quase quis sacrificá-la. Pensando com seus botões, encontrava até razões para isso: "Elas matam muitos animais pequenos, especialmente preguiças e macacos. Desequilibram o sistema ecológico circundante, pois cada casal de águias-harpia precisa de um território exclusivo de caça de cinqüenta quilômetros quadrados, com incursões num raio de mais de trezentos quilômetros".

Lembrou-se de ter lido nos jornais que, há algum tempo, na região amazônica, foram encontrados perto de um ninho restos de quarenta lebres e demais de duzentos patos devorados por elas. Sabia até que, na Austrália, as águias são mortas às centenas por serem prejudiciais aos cangurus e a outros pequenos animais. Como lá não existem abutres, são elas que comem animais putrefatos. Por isso são tão numerosas. Lera numa revista sobre aves de rapina que, entre 1950-1959, foram sacrificadas 120 mil águias australianas.

Mas há também o risco de a águia esquecer o céu e o vasto horizonte do sol e acomodar-se aos limites estreitos do terreiro das galinhas. Poderá comportar-se como galinha. Será que vai virar galinha?

E foi assim que a jovem águia continuou a ser criada com as galinhas. Durante dois anos circulava, cega, entre elas. Andava com dificuldade, pois suas garras não foram feitas para andar. Ciscava aqui e ali como fazem as galinhas, mas sem poder ver.

Eis que, um belo dia, o empalhador se deu conta de um milagre. A águia via. Sim, via e já distinguia os alimentos. Seus olhos eram e normes. Na verdade, eles são tão grandes como os olhos humanos, embora uma águia pese 28 vezes menos que um ser humano normal.

Enfim, a águia estava curada e perfeita! Depois de três anos de paciente cuidado, ela recuperara seu corpo de águia. Contudo à força de viver com galinhas virara, também ela, uma galinha. Vivia com as galinhas, ciscava com as galinhas,dormia no poleiro com as galinhas. O empalhador, ocupado em seu ofício de empalhar aves, já se acostumara com a águia-galinha entre as demais galinhas. Esqueceu-se dela.



A águia recuperara seu corpo. Mas, e o coração? Será que tinha perdido seu coração de águia? Essa pergunta foi suscitada, um dia, por certo fato curioso. Certa manhã ensolarada, sobrevoou o galinheiro um casal daquelas águias brasileiras grandes e imponentes. Fez violentos vôos rasantes, atraído pelos pintainhos que por lá circulavam despertando seu instinto e apetite.

Foi aquela correria geral. As águias só não caçaram os pintainhos porque o empalhador veio correndo em seu socorro. Ao perceber o casal de águias no céu, a águia-galinha espalmava as asas, sacudia a cauda e ensaiava pequenos vôos. O sol começava a despertar em seus olhos.

Foi então que o nosso empalhador se deu conta. A águia-galinha começava a despertar para o seu ser-águia. Seu coração de águia voltava a pulsar aos poucos.

O casal de águias foi embora em elegantes vôos circulares. A águia-galinha se aquietou. Um pouco mais e mais um pouco, enturmou-se às companheiras galinhas. No entanto, algo havia acontecido com ela. Vez por outra, quando águias sobrevoavam o terreiro, virava a cabeça para poder vê-las melhor. Procurava identificar suas verdadeiras irmãs águias. Ensaiava pequenos vôos com o ruflar de suas gigantescas asas. Mas logo voltava à sua segunda natureza de galinha-águia.

Nesse momento, o empalhador começou a dar-se conta desses pequenos sinais. Disse consigo mesmo:

Uma águia é sempre uma águia. Ela possui uma natureza singular. Tem as alturas dentro de si. O sol habita seus olhos. O infinito dos espaços anima suas asas para enfrentar os ventos mais velozes. Ela é feita para o céu aberto. Não pode ficar aqui embaixo, na terra, presa ao terreiro como as galinhas.

Passado um tempo, o empalhador recebeu a visita de um naturalista amigo. Conversaram sobre as aves da região e foram observar aquela águia tornada galinha. O naturalista ficou perplexo com a capacidade a daptativa da águia. Logo ponderou:

A águia jamais será galinha. Ela possui um coração. E este é de águia. Ele a fará voar. Ela voltará a ser plenamente águia.

Aí mesmo decidiram fazer um teste. Queriam ver o quanto da águia originária ainda vivia dentro da águia-galinha. O empalhador tomou uma proteção de couro para o braço a fim de não ser espetado pelas garras pontiagudas da águia. A muito custo conseguiram pegá-la. O empalhador colocou-a no braço estendido, sustentando seu peso de mais de três quilos. Animado pelo amigo falou-lhe com voz imperiosa:

Águia, você nunca deixará de ser águia! Você já sobreviveu a tantas desgraças! Você recuperou, um dia, seus olhos. Você é feita para a liberdade e não para o cativeiro. Então, estenda suas asas! Erga-se! E voe para o alto.

A águia parecia abobada. Não fez sequer um movimento. Ao olhar em redor de si, vendo as galinhas comendo milho, deixou-se cair pesadamente. E somou-se a elas.

Encorajado pelo amigo naturalista, o empaIhador não desanimou. Ponderou com ele:

Uma águia tem dentro de si o chamado do infinito. Seu coração sente os picos mais altos das montanhas. Por mais que seja submetida a condições de escravidão, ela nunca deixará de ouvir sua própria natureza de águia que a convoca para as alturas e para a liberdade!

No dia seguinte, agarrou a águia quando ainda estava no galinheiro. Colocou novamente a proteção de couro e subiu com seu amigo ao terraço de sua casa. Sob o olhar de expectativa do naturalista, disse-lhe com convicção:

Águia, já que você é e será sempre águia, desperte de seu sono. Liberte sua natureza feita para as alturas. Deixe nascer o sol dentro de você. Abra suas asas! E voe para o infinito!

A águia parecia totalmente distraída diante de palavras tão comovedoras. Olhou para baixo. Viu as galinhas ciscando o chão e bebendo água no cocho. O empalhador lançou-a lá de cima, na esperança de que voasse. Ela despencou pesadamente. Voou apenas alguns metros, como voam as galinhas. Tentou uma, duas, até três vezes. E a águia não chegava a voar. Comentou com seu amigo naturalista:

Efetivamente, nesta galinha-águia, a galinha parece triunfar.

Aí ambos se lembraram da importância do sol para os olhos da águia. Ponderou com razão o naturalista:

Ela é filha do sol. Desde pequena aprendeu a sorvê-lo pelos olhos. A mãe-águia segura o filhote na direção do sol. Acostuma seus olhos ao resplendor solar. Certamente – asseverou – é por causa disso que as águias, desde pequenas até a idade adulta, têm os olhos com as cores típicas do sol, o amarelo brilhante ou o alaranjado forte. Somente bem mais tarde, à força de olhar para o chão em busca de presas, seus olhos assumem a cor da terra. Tornam-se castanhos.

O empalhador completou estas idéias com a seguinte indagação:

Não será, por acaso, o sol que irá devolver-lhe a identidade perdida? Reanimar seu coração adormecido?

O naturalista confirmou-lhe a ponderação. No dia seguinte, bem cedo, levantaram-se antes de o sol nascer. O amanhecer estava esplêndido. A fímbria das montanhas escuras se destacava do fundo roxo do céu. Do lado do nascente, os primeiros raios douravam o cimo das rochas, avermelhando-as.

Para lá rumaram o empalhador e seu amigo naturalista levando a águia-galinha. Quando chegaram ao alto, o sol despontava, fagueiro, por detrás das montanhas. Os raios eram doces. A natureza despertava ressuscitada do langor da noite. O empalhador de aves colocou a proteção de couro, sustentou fortemente a águia e sob o olhar confiante do naturalista lhe disse:

Águia, você que é amiga das montanhas e filha do sol, eu lhe suplico: Desperte de seu sono! Revele sua força interior. Reanime seu coração em contato com o infinito! Abra suas potentes asas. E voe para o alto!

A águia mostrou-se surpreendentemente atenta. Parecia voltar a si depois de um longo esquecimento. Olhou ao redor, viu as montanhas e estremeceu. Por mais que o empalhador a ajudasse, com movimentos para cima e para baixo, ela não superava o medo. Ele não conseguia fazê-la voar.

Então, a conselho do naturalista, tomou-a firmemente entre as duas mãos e, por bom espaço de tempo, segurou-a pela cabeça na direção do sol. Os olhos da águia se iluminaram. Encheram-se do brilho juvenil do sol, amarelo e alaranjado forte.

Agora sim ela vai renascer como águia! O sol vai irromper dentro de sua alma! – proclamou entusiasmado o empalhador de aves.

Com voz forte e decidida retomou:

Águia! Você nunca deixou de ser águia! Você pertence ao céu e não à terra.. Mostre agora que você é de fato uma águia. Abra seus olhos. Beba o sol nascente. Estenda suas asas. Erga-se sobre você mesma e ganhe as alturas. Águia, voe!

Segurou-a firmemente pelas pernas emplumadas. Alçou-a para cima. Deu-lhe um último impulso. Oh, surpresa! A águia ergueu-se, soberba, sobre seu próprio corpo. Abriu as longas asas titubeantes. Esticou o pescoço para frente e para cima, como para medir a imensidão do espaço. Alçou vôo. Voou na direção do sol nascente. Ziguezagueando no começo, mais firme depois, voou para o alto, sempre para mais alto, para mais alto ainda, até desaparecer no último horizonte.

Acabara de irromper plenamente a águia até aqui prisioneira da galinha. Finalmente livre para voar, e voar como águia resgatada rumo ao infinito. E assim voou! Voou até fundir-se no azul do firmamento”

 
***

O Reencontro da Águia com a Galinha

Perto do entardecer, a águia avista o antigo lar. Enquanto prossegue em vôo firme, pergunta a si mesma:
Como estarão minhas irmãs, após tantos anos?
Agora já vê a campina onde costumavam passar o dia. Vê muitos rostos de longe, nenhum conhecido.
Quantas estórias para contar e para ouvir! – pensa ela, entusiasmada.
Próxima ao destino, as galinhas começam a fugir assustadas, fazendo seu usual estardalhaço. A águia estranha a reação. Tão logo pousa naquele solo plano, usa o seu “kau kau” na tentativa de chamar alguma conhecida que esteja nas proximidades. Mas é em vão. As galinhas se escondem como podem debaixo do casebre, dentro do galinheiro, ou fogem para a mata fechada.
Nada de aproximação, exceto a do cuidador daquele galinheiro, que corre na direção da águia aos berros. A águia também ansiava por encontrar o homem que a salvara e criara. Embora não reconhecesse aquele indivíduo em específico, seu coração disparou de alegria ao ver um humano naquele local.
O cuidador parou a poucos metros de distância. Agora apenas grita e move os braços.
Estranho comportamento – pensa a águia. Todos sabiam que os humanos eram quase sempre incompreensíveis, mas a águia nunca tinha visto um comportamento como aquele. O camponês olha para trás, retorna alguns passos, pega o objeto mais próximo que encontra e volta a caminhar em direção à águia. Quando esta pressente que algo não vai bem, só há tempo para sentir o choque do objeto a jogá-la longe. Cambaleante, está apenas acordada o suficiente para alçar um vôo de retirada às pressas.

Empoleirada em alguma árvore segura, a águia agora reflete sob o episódio que acabara de suceder, enquanto assiste aos últimos raios do sol poente.
O que foi aquilo? Por que minha chegada causou medo em minhas próprias irmãs? O que houve para provocar tanta ira dos seres que sempre cuidavam de nós?
A águia não sabia que a ira divina também existia naquele galinheiro. Só tivera contato com a violência humana após lançar-se ao mundo, em sua nova vida. Do seu antigo lar, tinha apenas a lembrança de um ser cuidador, protetor, às vezes caprichoso, mas não a ponto de representar uma ameaça.
Tudo agora estava confuso para a águia, o que lhe dificultou cair no sono. Esperava apenas reencontrar a antiga família, mas só encontrou medo e violência, quase semelhantes aos que se acostumara a ver nos últimos anos. Entretanto, estava determinada a revisitar, de um modo ou de outro, o antigo galinheiro onde havia sido criada. Foram seus últimos pensamentos daquela noite…

A águia acordou ao ouvir o delicioso cantar do galo, que inundou-lhe a alma com a nostalgia dos tempos da fazenda. Observou de longe algumas galinhas e pintinhos se espalhando pelo capim rasteiro. Viu ir-se à lavoura o homem que ontem lhe dera a vassourada. Foi se aproximando sem voar, aos poucos e silenciosa, escondida por entre a mata, até o mais próximo que pode das galinhas. A última coisa que pretendia era provocar o estardalhaço do dia anterior. Permaneceu a vigiar o bando, à procura de algum rosto conhecido.
Onde estão todas? Nem sequer Nosso Senhor, protetor do galinheiro… – suspira a águia – Não é possível que estejam todas mortas. Devem ter partido para algum lugar… Terá algum destino mais duro obrigado-lhes a fugir? Oh! – indagava.
Mas se houvessem partido eu as teria encontrado. Viajo muito e conheço cada palmo destas terras. Será que estão realmente mortas, então? Preciso perguntar! Mas… como perguntar? Ontem ficaram com medo, e ainda fui atacada pelo seu senhor. Será que este é um grupo de invasoras, que conquistou e dizimou nossa comunidade? Sim, agora difundem o medo do estrangeiro para todo o grupo, o que legitima o ataque como aquele que sofri ontem. Aquele humano só pode ser um dos deuses maus tão comentados pelos animais da floresta!
A águia passa da dúvida para um estado de grande preocupação com a própria segurança.
Será que corro perigo? Estou muito exposta. Preciso ir para um lugar seguro e repensar meus planos – cogita a águia, alerta, dando meia-volta, quando…
Ei! – exclama uma galinha próxima, pegando a águia de surpresa.
Não me machuque! Eu vou embora! Não diga nada, por favor! – implora a águia.
Não está me reconhecendo? – pergunta a galinha, agora pausadamente.
A águia suspira e encontra semelhanças entre a galinha e uma de suas antigas irmãs.
Minha nossa, como você mudou! – Exclama a águia, enquanto as duas se abraçam na alegria do reencontro.
Aqui no bando todas dizem que estou bem conservada – ri a galinha – Acho até que sou a mais velha do galinheiro – comenta orgulhosa.
Como assim? Mas se passaram apenas 5 anos…
Bem… não contamos o tempo desta maneira mas, se você fala, eu acredito. Tudo o que sei é que passou-se bastante tempo, mais do que suficiente para a vida de uma galinha.
Uau, e para mim passou tão rápido! – e ambas mantêm o olhar fixo de contentamento misturado com curiosidade, uma sobre a outra.
Mas… – prossegue a águia, agora preocupada – então todas as outras já morreram? – e uma gota de lágrima ameaça brotar dos seus olhos.
Não, amiga. Não fique triste. De fato, apenas a minoria morreu. O galinheiro sempre foi abençado por bons cuidadores, que nos protegem das ratazanas, lagartos e demais predadores. A maioria tem a graça de ser levada pelo Divino Criador, quando chegada a hora – e a galinha faz um sinal, como se manifestasse respeito pelo que acabava de falar.
A águia acalma-se, aliviada.
Sabe, nestes anos em que estive fora, jamais encontrei deuses cuidadores. Até circulam boatos sobre sua existência. Dizem que os deuses escolhem alguns indivíduos e os levam embora daquela vida selvagem. Mas para o resto de nós, além da sobrevivência, vivemos preocupadas é com a ira divina, que chega sem aviso e destroi a floresta. Você não faz ideia como os humanos lá fora são vingativos. Lhe dou razão em agradecer ao Deus misericordioso que cuida deste galinheiro.
Não consigo imaginar um deus vingativo – replica a galinha.
Ah, espere até conhecer o mundo exterior, minha querida amiga – e continua – Ontem mesmo, seu Deus me agrediu. Até agora não entendi o motivo.
E a galinha olha para baixo, reflexiva:
Não tenho como saber. Se ele o fez, deve ter sido com alguma razão, e também com amor.
Se não foi vingança, o que pode ter sido então? Está na cara que tentou se vingar por eu ter fugido no passado! Só pode! – conclui a águia, agora com um misto de revolta e tristeza.
Mas diante do olhar pensativo da galinha, talvez um pouco constrangida com o que acabara de ouvir, a águia desconversa:
Mas então, me fale sobre você! Como tem sido a vida aqui no galinheiro durante esse tempo todo? Quais são as novidades?
Ah, não sei se você lembra, mas não temos tanta preocupação com o tempo. Temos um conhecimento razoável do nosso destino. Salvo exceções, como ser pega por um predador ou acometida por uma doença, algo que é muito raro neste galinheiro, vivemos o presente, sabendo que um dia seremos levadas por nosso Bom Cuidador. Sendo assim, a mudança e as novidades não têm tanta importância para nós, quanto o sentido que damos ao presente – e continua – O verdadeiro desconhecido, para nós, é o que acontece após esta vida, a qual está entregue a Ele. Portanto deixamos nossa partida ao julgamento deste Bom Deus, Nosso Criador, e com ele ficam nossas preocupações. Resta-nos, assim, dar o melhor neste momento transitório denominado Vida, conforme a lógica segundo a qual o bem que fazemos aqui, colheremos lá do outro lado. O futuro e o passado não nos preocupam tanto pois, em essência, se parecem com o presente. Sendo assim, podemos voltar nossa atenção para os detalhes do aqui-e-agora.
Nunca imaginei o que você acaba de me explicar. Lá na floresta – comenta a águia – difunde-se a ideia de que animais de granjas são ignorantes a apreciarem suas vidas mesquinhas, dependentes e sem perspectivas. Eles dizem que estes animais ciscam, vivem na mesmice, sem enxergarem mais do que alguns palmos além do próprio focinho. Ter sido criada no galinheiro me permitiu ver que as coisas não são bem assim. Sempre achei que os animais selvagens cultivassem certa inveja dos animais domésticos, dando origem a tal preconceito. Mas realmente nunca havia pensado nestas questões profundas que agora você me ensina…
Temos ciência destes preconceitos – responde a galinha – Sabe, não somos tão isoladas como os animais selvagens pensam. Somos visitadas por inúmeros pássaros e outros bichos, desde habitantes das redondezas até peregrinos, nômades e migratórios. Através deles, ficamos conhecendo notícias que circulam nas paragens mais distantes deste mundo. É claro que também ouvimos os comentários jocosos, críticos e desprezíveis a nosso respeito.
A águia refletiu. Supôs que dentre aqueles animais migratórios estariam algumas das suas caças favoritas. Sentiu vontade de comentar mas conteve-se, preferindo deixar a interlocutora continuar o interessante depoimento.
Aqui no galinheiro também formamos ideias sobre os animais selvagens, muitas das quais acredito que sejam preconceituosas. Temos a tendência de ver estas espécies como sendo individualistas em demasia. Não sabem viver em comunidade. Fazemos graça da sua covardia, afinal estes bichos batem em retirada à menor sombra de nosso cuidador ou de outro humano. Eles tentam ser livres mas não têm sequer a tranquilidade para habitar livremente nas paragens civilizadas e ermas onde circulamos diariamente.
É – responde a águia – entendo a razão de ser destas críticas, embora sejam apenas meias verdades. Do ponto de vista dos bichos da floresta, não há ilusão de se considerarem mais livres do que os outros. O que muitos consideram, sim, é viverem uma vida mais autêntica. Julgam-se mais responsáveis pelo próprio destino. Acham infantil a forma autoelogiosa com a qual animais domésticos referem a si mesmos, como se fossem mais civilizados, mais unidos, mais irmãos. Estes valores são válidos apenas dentro da segurança dos seus cativeiros cercados. Os membros deste galinheiro, por exemplo, não sobreviveriam sequer um dia se deixados à própria sorte, no mundo lá fora.
Interessante – diz a galinha – Como é importante aprendermos com as diferenças.
Mas eu sou a prova viva de que aquilo que dizem na selva também está errado! Veja, minha irmã, fui capaz de, largada à própria sorte, voar e cobrir longas distâncias. Enfrentar riscos nos lugares mais perigosos. E sobrevivi, tanto tempo quanto você! Somos as galinhas mais antigas deste bando. Cada uma de nós foi capaz de seguir uma história completamente diferente. Como eu gostaria de poder mostrar às outras galinhas que é possível usufruir o melhor destes dois mundos! Eu gostaria tanto… – repetiu a águia, em tom pensativo – mas elas agora têm medo de mim.
A galinha escutava o depoimento, agora compadecida, sem saber o que dizer à amiga.
Veja bem… não sei como lhe dizer… mas apesar de termos parte de nossos destinos em comum, temos diferenças que não devem ser ignoradas – tentou, a galinha, introduzir um argumento.
O que quer dizer?
Se observar com cuidado, verá que não temos as mesmas asas possantes que lhe permitem voar alto. Nossas patas e nosso bico são extremamente frágeis comparados aos seus. Com nossa estrutura física, seríamos alvos fáceis dos animais das florestas. Ficaríamos confinadas, nos escondendo, nos reduzindo à nossa própria fragilidade.
A águia, ao comover-se com o depoimento da galinha, esqueceu um pouco a própria confusão que lhe atormentava naquele exato momento. As galinhas, por sua dificuldade em voar e fácil adaptação ao cativeiro, tornaram-se domesticáveis pelo ser humano. Sua aparente fraqueza - pois agora seu destino atrelava-se às vontades humanas - era também sua aparente força. Consideradas úteis aos homens, podem então se reproduzir às milhares, sem correrem risco de extinção.
A águia tentava reorganizar os pensamentos. Ela olhava para si própria de maneira diferente, pela primeira vez. Por ter sido criada junto às galinhas, ainda pensava que as galinhas eram iguais a ela. Havia formulado sua experiência de vida a partir da referência mais familiar, proveniente da primeira metade da vida dentro do galinheiro:
Estou tão confusa…
A galinha permanecia em silêncio.
Algumas coisas começam a fazer sentido… sabe, nunca cheguei a compreender completamente minha partida do galinheiro. Conforme crescia nesta granja, percebia aqui e acolá uma certa rejeição por parte das outras galinhas. Um estranhamento, algo muito difuso, que nunca foi dito abertamente, mas era sentido nos olhares. Nosso cuidador, de tempos em tempos, passou a me pegar, afastar-me do bando e fazer gestos como se quisesse mandar-me embora. Eu resistia, retornava ao grupo, mas logo ele retornava. A cada retorno, parecia aumentar a rejeição por parte das demais galinhas. Olhavam-me de lado, evitavam-me, silenciavam à minha presença. Até que um dia o cuidador levou-me para tão longe, tão alto, fez-me olhar o sol, como se me quisesse cegar novamente. Assim, de súbito, fugi para a floresta – contava a águia, revisitando a própria história numa procura de compreender o que não havia entendido até então.
Passei os dias mais tristes recolhida por entre as árvores, sentindo um misto de revolta e medo pelo estranho tratamento que me foi dispensado. Aos poucos, procurei substituir estes sentimentos por alguma possível culpa. Talvez algum pecado original pudesse dar lógica àqueles acontecimentos. Mas o que teria eu feito de errado? Fui criada com todo cuidado pelos mesmos seres que agora me excluíam. De qualquer maneira, a fome obrigou-me a voar e, desde então, conformei-me com a possibilidade de precisar carregar para sempre certas dúvidas.
Sabe, irmã – lhe responde a galinha – jamais pensamos que estas coisas ocorressem assim. As galinhas zelam muito pela vida comunitária, o que as torna sensíveis contra qualquer coisa que possa desestabilizar as crenças que as mantêm unidas. Nos consideramos muito semelhantes umas às outras. Se não cometermos deslizes, como ser alvo de predadores ou de alguma doença fatal, sabemos que todas seremos, mais cedo ou mais tarde, escolhidas pelo Criador. É em função da nossa dedicação, nossa alimentação, reprodução que, um dia, Ele vem ao nosso encontro. Mas o seu comportamento causou estranhamento a todas, pois você era a única escolhida pelo Criador que, em seguida, retornava ao bando. O grupo ficou absolutamente confuso. As especulações mais comuns eram que você estaria fugindo de nosso Protetor, sendo rejeitada por Ele ou, ainda, O desafiando. Como poderia uma de nós burlar o Criador desta maneira? Isso nos causava muito espanto.
Por que não perguntaram? Por que se satisfizeram com tais divagações? – reclamou a águia.
Não sabíamos. Estávamos perplexas. Você não tem ideia como certas coisas nos causavam confusão. Lembra-se de quando éramos atacadas pelas águias que viviam na região? Todas corríamos o mais rápido possível para nos escondermos. Mas você permanecia lá, estática, movendo suas asas abertas, olhando para aqueles seres assustadores. Pensávamos que você seria presa fácil se não se escondesse mas, para nossa total surpresa, as águias nunca tocaram em você. Acredite, você causava espanto a todas, e tornou-se um tabu para nós.
Como eu poderia correr, com estas garras e estas asas? Caminhar para mim é uma das tarefas mais desajeitadas que existe! Correr é impossível. Só o que eu podia fazer era abrir as asas, parecer grande, para quem sabe fazê-las recuarem – retrucou a águia.
Agora que você fala, preciso reconhecer, os ataques aéreos aumentaram após a sua partida. Quem sabe a sua presença no galinheiro estivesse inibindo a vinda das grandes aves predadoras – ponderou a galinha, numa tentativa de consolar-lhe os ânimos.
Mas o fato, sendo um motivo a mais para fomentar a acolhida pelo galinheiro, alimentou na águia a impressão de estar sendo alvo de ingratidão de suas antigas companheiras. Jamais pudera imaginar que inigualável incompreensão pudesse brotar justamente no núcleo da própria família e do próprio lar.
Você não sabe como a indiferença é venenosa – disse a águia – Confesso que após vários dias tentando me virar na floresta, percebendo que nenhuma galinha circulava por lá, passei a sentir pena e até desprezo pelo galinheiro. “Elas que fiquem lá, no seu mundinho pequeno e fechado, pois merecem umas às outras” era o que eu pensava.
A galinha escutava pensativa. Também para ela não estava sendo fácil processar tudo o que acabara de ouvir.
Eu confesso que foi uma surpresa e tanto encontrá-la hoje, escondida no meio dos arbustos, depois de todo esse tempo – disse ela – Tudo o que sabíamos é que após várias tentativas, o Criador finalmente a havia levado em definitivo. Como confiamos nosso destino a Ele, concluímos que tudo estava bem, de acordo com os desígnios do Universo, e apenas rezamos pela sua alma, como fazemos para todos aqueles que são levados pelo Criador. Vou lhe contar mais uma coisa – e agora a galinha sussurrava ao ouvido da águia – não posso falar para ninguém, aqui dentro, acerca deste nosso encontro. Isso balançaria as crenças do grupo. Eu mesma não sei o que pensar, vendo que você retornou novamente após estar nos braços do Criador por uma dúzia de vezes. Como estou velha e minha hora vai chegar, acho que também vou preferir conviver com esta dúvida do que sofrer para tentar resolvê-la.
As duas fizeram uma longa pausa em silêncio. Duas visões de mundo encontravam, cada uma, o próprio abismo. Não havia para onde avançar. A galinha parecia destinada a não conseguir extrapolar sua própria metafísica. A águia parecia destinada a desestruturar a coesão interna do galinheiro. Ambas estavam separadas pelas próprias contingências, enquanto unidas pelo coração, e destinadas a conviver com insolúveis contradições.
Agora entendo por que não compreendia as águias em meus primeiros meses na floresta – disse a grande ave, tentando quebrar o gelo – Elas se aproximavam de mim e, claro, causavam-me medo. Algumas realmente me repeliam para longe. Foi assim que me distanciei cada vez mais da terra natal. Mas por outro lado, em outros momentos, eu sentia um desejo de contato. Não sentia ameaça. Foi assim que, nestes anos todos, em alguns períodos, tive companhia e filhos, os quais ajudaram a interromper a solidão.
Mas, voltando ao assunto – continuou a águia – elas insistiam para que eu caçasse galinhas. Diziam que os frangos jovens eram os alvos mais fáceis de todos. Expliquei-lhes que não podia caçar minhas semelhantes, o que me transformou em motivo de chacota em nas redondezas. Se um dia ouvir boatos sobre uma águia que pensa ser galinha, é de mim que estão falando – concluiu jocosa.
Nem a águia nem a galinha perceberam de imediato o alcance daquelas últimas palavras. A águia, talvez num gesto inconsciente, estava se afirmando, como se espera de um ser que experimentava a rejeição. Aquele não era um simples encontro entre dois membros da mesma antiga família, era também um encontro entre presa e predador. Com a diminuição das florestas e o avanço da agricultura, as galinhas não apenas se tornavam mais comuns como, também, eram das poucas alternativas de sobrevivência para as águias. A águia e a galinha poderiam estar condenadas a um destino fratricida, precisando, algum dia, uma caçar, a outra fugir, para garantirem a própria sobrevivência.
Posso lhe oferecer algo? Você viajou muito, deve ter fome – perguntou a galinha, tentando ser gentil, ou então para saber se a águia estava, realmente, faminta.
Não, obrigado. Estou bem – respondeu a águia, retribuindo a gentileza, procurando não causar mais preocupações à amiga que acabava de lembrar-lhe do tamanho da própria fome. A águia estava, sim, passando por tempos difíceis. As lavouras e as cidades escasseavam opções alimentares das aves de rapina. Para evitar galinhas, esta águia preferia caçar os pombos que proliferavam em toda a região, uma opção interessante, não fossem os piolhos e parasitas que traziam consigo.
Na verdade queria lhe pedir apenas um favor – continuou – está difícil me livrar destes piolhos… Você, com seu olhar microscópico e seu bico preciso, cataria alguns piolhos aqui nas minhas costas?
Claro, com prazer – respondeu a galinha. E a conversa continuou, agora num tom mais ameno.
Como é a sensação de voar? – perguntou a galinha.
Voar, para mim deve ser como ciscar, para você. É uma necessidade.
Aqui em baixo, nós, galinhas, às vezes pensamos sobre quão maravilhoso deve ser observar o mundo inteiro de cima. Vocês devem se sentir grandes, vendo a Terra toda, tão pequena, lá do alto.
Sim, de certa maneira – refletia a águia – mas você sabe, ver as coisas de maneira pequena é uma experiência de distanciamento. Não temos muita chance de conversarmos umas com as outras, com os pés no chão. Estamos sempre em níveis diferentes, a distâncias variáveis e inconstantes, umas das outras. Sempre admirei a capacidade das galinhas conversarem no mesmo nível e se entenderem. As águias não são tão boas de papo – e ambas riram deste último comentário.
A vida aqui em baixo não gira apenas em torno do entendimento – replicou a galinha – Nossa existência, relativamente certa e garantida, nos dá tempo de sobra para pensarmos, discutirmos, nos entregarmos à socialização, aos prazeres e ao ócio. Com isso, também surgem conflitos. Entre os frangos mais jovens, então, você não faz ideia! Alguns, influenciados pelas aves itinerantes de que lhe falei há pouco, constroem as mais diferentes ideologias. Há quem defenda que precisamos de uma organização social para superar a dependência dos humanos. Outros dizem que isso seria utopia, pois o controle humano tem sido o único capaz de proteger as galinhas do mesmo estado de barbárie que se observa na vida selvagem. Por sua vez, há quem procure os meios mais baixos para desacreditar nossa religião, afirmando que o destino das galinhas e ovos é apenas alimentar o Criador, que não passa de um animal predador igual aos outros – e a galinha faz mais um sinal de reverência ao seu protetor divino.
Bom – respondeu a águia – quisera eu ter mais tempo para pensar. Os animais terrestres acreditam que voamos por puro prazer. Juro para você que se tivesse alimento de sobra, eu comeria tanto que ficaria uns três dias sem conseguir levantar vôo. Temos uma rotina diária muito rígida que envolve procurar alimento, proteger filhotes e brigar pelo território. Qualquer erro neste planejamento pode ter consequências fatais. Enfrentamos preocupações demais para podermos gastar tempo com alguma filosofia. E agora, com o avanço humano sobre a floresta, nos tornamos cada dia mais competitivas, mais preocupadas com nossa condição vulnerável perante aqueles seres onipotentes. Ah, minha cara amiga, os únicos filósofos que você encontra na floresta são profetas do Fim do Mundo.
Nós, galinhas, neste confinamento, também somos competitivas. Como temos o Criador para cuidar de nossas vidas, desenvolvemos o hábito de cuidar da vida das outras. Atentas, como somos, aos detalhes, nos tornamos vigilantes de nossas companheiras e, quando queremos, criamos as histórias mais incríveis umas sobre as outras. Assim vamos escalando na hierarquia do bando. Aprendemos a falar pelas costas quando queremos colocar a coletividade contra o indivíduo. Não raro somos premiadas por essa tarefa e, assim, obtemos confiança do grupo, nos apresentando como pessoas leais. Observe, nas narrativas internas do galinheiro, não há quem fale em próprio nome. A negociação é para falar em nome do grupo. Não há busca individual da verdade, mas a procura de fabricar uma verdade compartilhada coletivamente, e moldar-se a ela. Sou velha… – reflete a galinha – mas quando jovem, procurando meu espaço, também me envolvi neste tipo de trama. Não se trata apenas de um duelo maldoso. Por mais que consigamos ser cooperativas, também aqui há espaços mais e menos privilegiados, que são ocupados conforme a capacidade de cada uma, neste imbricado jogo de relações sociais do galinheiro. Acredite, não há nada pior do que ser alvo de galinhas fofoqueiras – concluiu ela.
Suponho – ponderou a águia – que com a experiência da idade você tenha começado a deixar em segundo plano certas coisas pelas quais lutava antes, na batalha pela vida.
Certamente. Para quem não tem mais ambições de ser a mais bela e conservada, atrair o melhor galo, ganhar o melhor espaço para choca, ciscar nos melhores lugares, todas estas coisas começam a parecer, de fato, migalhas, como dizem os selvagens – e continuou – Veja só: com nosso dom de ver os pormenores das coisas, com nossa capacidade de reflexão e de imaginação, neste centímetro quadrado – falou, riscando o chão – posso encontrar o infinito! É claro que eu também tento imaginar como é a vida das águias, a voarem alto. Pessoalmente, nunca vi o horizonte. Mal sei o que há para além destas árvores. Só os conheço por estórias de terceiros. Mas passei a viver em paz com a realidade das minhas limitações quando percebi que posso ultrapassar os horizontes aqui mesmo, sem sequer me mover. Posso olhar tudo ao meu entorno e ver o infinito.
A galinha continua:
Exercitando minha capacidade de observação, adquiri um respeito e admiração no galinheiro, por outras vias. Elas vêm a mim quando têm dúvidas, atrás de conselhos ou simplesmente para ouvir estórias. Talvez seja este o motivo pelo qual o Criador ainda não tenha me levado. Quem sabe ainda tenho alguma missão a cumprir junto a minhas companheiras mais jovens?
No mínimo – replicou a águia – lhe asseguro que você cumpriu uma tarefa importante hoje, estando aqui para me encontrar. Como vê, as águias, com seu invejável senso de direção, também se sentem perdidas. Você me permitiu ver mais longe. Vim com milhares de dúvidas sobre mim mesmo, sobre minha história, sobre minhas origens. Não sei se as esclareci, ou se apenas retornarei para a vida selvagem com novas dúvidas, mas tenho o sentimento de que sou um novo ser. Talvez eu me sinta grata em aceitar minha condição de águia. Certamente me sinto grata de poder ter sido, também, galinha. Precisarei conviver com o fato de que meu coração, em parte, ficará aqui no galinheiro. Quem sabe, com a idade, poderei olhar com mais serenidade para as coisas que não me forem possíveis resolver.
A idade não significa experiência – diz a galinha, em tom filosófico – Experiência é o que se acumulou antes dela. Seu corpo de águia e sua história de galinha são de onde você poderá extrair o melhor do seu ser. São as suas ferramentas, os seus fardos e também as suas fronteiras. Não posso lhe dizer que vivo em paz por conhecer meus limites. Vivo em paz porque aceito os limites que acredito possuir. Quando jovem, acreditava não possuir limites; hoje acredito possui-los. Penso que, no fundo, em ambas situações eu estivesse iludida, mas procurei fazer o melhor a partir da ilusão que me era aceitável. Ser águia ou ser galinha, viver na selva ou na granja, é apenas a ilusão. Em essência, se ambas condições existem, eis a Vida dizendo “sim! há espaço para você no Universo!” Existir nos torna iguais. Completar a existência com significado é o que nos torna diferentes.
A águia não sabia o que fazer com aquelas palavras, mas procurou guardá-las acreditando serem preciosas. Não havia o que dizer, mas muito o que pensar em sua viagem de volta. Dirigiu-se ao galinheiro pensando que talvez encontrasse, lá, um porto seguro após tantos anos. Pensava ainda que ensinaria às demais galinhas a fazerem como ela, alçarem vôo, visitarem outros ambientes. Pensava estar levando, ao galinheiro, todo um mundo de descobertas, mas descobriu o oposto. Descobriu que seu retorno era impossível e desestabilizador. Percebeu que uma galinha, caso tente agir como águia, pode comprometer a própria existência, tanto quanto uma águia, quando tenta agir como galinha. A águia não tinha mais o que oferecer ao galinheiro, e o galinheiro não tinha mais o que oferecer à águia. A águia nada mais podia esperar do galinheiro e o galinheiro nada mais podia esperar da águia. Mesmo assim, o encontro inesperado entre galinha e águia, um encontro provocado por ambas, foi transformador para as duas. Este contato chocante significava muito àquela ave. Ela podia, a partir daquele dia, renascer, descobrindo quem era ao se dar conta do que não poderia ser.

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Do meu outro blog, Grupos Abusivos .