(Em azul, trecho
de “A Águia e a Galinha” de Leonardo Boff.
Na sequência, a continuação livre escrita por mim)
“Numa
tarde sonolenta de verão, voltava um criador de cabras, do alto de
uma planura verde, na floresta atlântica do norte do estado do Rio
de janeiro. Ao pé da montanha por onde passava, encontrou, de
repente, um ninho de águias todo estraçalhado. Semicoberta de
gravetos, uma jovem águia, ferida na cabeça. Parecia morta, toda
ensangüentada. Era uma águia rara, a águia-harpia brasileira,
ameaçada de extinção.
Recolhendo-a
com cuidado pensou:
– Vou
levá-la ao meu vizinho que é um amante de pássaros. Gosta
deempalhar gaviões, garças, patos selvagens e veados. Talvez ele
queira empalhar este filhote de águia!
E
assim fez, pois o caminho passava junto à casa do empalhador. Este
acolheu alegremente o criador de cabras. Ficou admirado por se tratar
de uma águia-harpia, rara naquela região. Encheu-se de pena dela.
Também ele supôs que estivesse morta. Colocou-a ternamente debaixo
de uma cesta. Amanhã vou empalhá-la, matutou resignadamente consigo
mesmo. Embora pequena, vai ser uma ave soberba depois de empalhada,
enchendo de grandeza qualquer sala!
No
dia seguinte, teve grata surpresa. Ao retirar o cesto, percebeu que a
águia se mexia levemente. As garras, ainda novas, estavam fechadas.
Havia feridas em várias partes do corpo. A águia estava cega.
Novamente sentiu pena da jovem águia. Por misericórdia quase quis
sacrificá-la. Pensando com seus botões, encontrava até razões
para isso: "Elas matam muitos animais pequenos, especialmente
preguiças e macacos. Desequilibram o sistema ecológico circundante,
pois cada casal de águias-harpia precisa de um território exclusivo
de caça de cinqüenta quilômetros quadrados, com incursões num
raio de mais de trezentos quilômetros".
Lembrou-se
de ter lido nos jornais que, há algum tempo, na região amazônica,
foram encontrados perto de um ninho restos de quarenta lebres e
demais de duzentos patos devorados por elas. Sabia até que, na
Austrália, as águias são mortas às centenas por serem
prejudiciais aos cangurus e a outros pequenos animais. Como lá não
existem abutres, são elas que comem animais putrefatos. Por isso são
tão numerosas. Lera numa revista sobre aves de rapina que, entre
1950-1959, foram sacrificadas 120 mil águias australianas.
Mas
há também o risco de a águia esquecer o céu e o vasto horizonte
do sol e acomodar-se aos limites estreitos do terreiro das galinhas.
Poderá comportar-se como galinha. Será que vai virar galinha?
E
foi assim que a jovem águia continuou a ser criada com as galinhas.
Durante dois anos circulava, cega, entre elas. Andava com
dificuldade, pois suas garras não foram feitas para andar. Ciscava
aqui e ali como fazem as galinhas, mas sem poder ver.
Eis
que, um belo dia, o empalhador se deu conta de um milagre. A águia
via. Sim, via e já distinguia os alimentos. Seus olhos eram e
normes. Na verdade, eles são tão grandes como os olhos humanos,
embora uma águia pese 28 vezes menos que um ser humano normal.
Enfim,
a águia estava curada e perfeita! Depois de três anos de paciente
cuidado, ela recuperara seu corpo de águia. Contudo à força de
viver com galinhas virara, também ela, uma galinha. Vivia com as
galinhas, ciscava com as galinhas,dormia no poleiro com as galinhas.
O empalhador, ocupado em seu ofício de empalhar aves, já se
acostumara com a águia-galinha entre as demais galinhas. Esqueceu-se
dela.
A
águia recuperara seu corpo. Mas, e o coração? Será que tinha
perdido seu coração de águia? Essa pergunta foi suscitada, um dia,
por certo fato curioso. Certa manhã ensolarada, sobrevoou o
galinheiro um casal daquelas águias brasileiras grandes e
imponentes. Fez violentos vôos rasantes, atraído pelos pintainhos
que por lá circulavam despertando seu instinto e apetite.
Foi
aquela correria geral. As águias só não caçaram os pintainhos
porque o empalhador veio correndo em seu socorro. Ao perceber o casal
de águias no céu, a águia-galinha espalmava as asas, sacudia a
cauda e ensaiava pequenos vôos. O sol começava a despertar em seus
olhos.
Foi
então que o nosso empalhador se deu conta. A águia-galinha começava
a despertar para o seu ser-águia. Seu coração de águia voltava a
pulsar aos poucos.
O
casal de águias foi embora em elegantes vôos circulares. A
águia-galinha se aquietou. Um pouco mais e mais um pouco,
enturmou-se às companheiras galinhas. No entanto, algo havia
acontecido com ela. Vez por outra, quando águias sobrevoavam o
terreiro, virava a cabeça para poder vê-las melhor. Procurava
identificar suas verdadeiras irmãs águias. Ensaiava pequenos vôos
com o ruflar de suas gigantescas asas. Mas logo voltava à sua
segunda natureza de galinha-águia.
Nesse
momento, o empalhador começou a dar-se conta desses pequenos sinais.
Disse consigo mesmo:
– Uma
águia é sempre uma águia. Ela possui uma natureza singular. Tem as
alturas dentro de si. O sol habita seus olhos. O infinito dos espaços
anima suas asas para enfrentar os ventos mais velozes. Ela é feita
para o céu aberto. Não pode ficar aqui embaixo, na terra, presa ao
terreiro como as galinhas.
Passado
um tempo, o empalhador recebeu a visita de um naturalista amigo.
Conversaram sobre as aves da região e foram observar aquela águia
tornada galinha. O naturalista ficou perplexo com a capacidade a
daptativa da águia. Logo ponderou:
– A
águia jamais será galinha. Ela possui um coração. E este é de
águia. Ele a fará voar. Ela voltará a ser plenamente águia.
Aí
mesmo decidiram fazer um teste. Queriam ver o quanto da águia
originária ainda vivia dentro da águia-galinha. O empalhador tomou
uma proteção de couro para o braço a fim de não ser espetado
pelas garras pontiagudas da águia. A muito custo conseguiram
pegá-la. O empalhador colocou-a no braço estendido, sustentando seu
peso de mais de três quilos. Animado pelo amigo falou-lhe com voz
imperiosa:
– Águia,
você nunca deixará de ser águia! Você já sobreviveu a tantas
desgraças! Você recuperou, um dia, seus olhos. Você é feita para
a liberdade e não para o cativeiro. Então, estenda suas asas!
Erga-se! E voe para o alto.
A
águia parecia abobada. Não fez sequer um movimento. Ao olhar em
redor de si, vendo as galinhas comendo milho, deixou-se cair
pesadamente. E somou-se a elas.
Encorajado
pelo amigo naturalista, o empaIhador não desanimou. Ponderou com
ele:
– Uma
águia tem dentro de si o chamado do infinito. Seu coração sente os
picos mais altos das montanhas. Por mais que seja submetida a
condições de escravidão, ela nunca deixará de ouvir sua própria
natureza de águia que a convoca para as alturas e para a liberdade!
No
dia seguinte, agarrou a águia quando ainda estava no galinheiro.
Colocou novamente a proteção de couro e subiu com seu amigo ao
terraço de sua casa. Sob o olhar de expectativa do naturalista,
disse-lhe com convicção:
– Águia,
já que você é e será sempre águia, desperte de seu sono. Liberte
sua natureza feita para as alturas. Deixe nascer o sol dentro de
você. Abra suas asas! E voe para o infinito!
A
águia parecia totalmente distraída diante de palavras tão
comovedoras. Olhou para baixo. Viu as galinhas ciscando o chão e
bebendo água no cocho. O empalhador lançou-a lá de cima, na
esperança de que voasse. Ela despencou pesadamente. Voou apenas
alguns metros, como voam as galinhas. Tentou uma, duas, até três
vezes. E a águia não chegava a voar. Comentou com seu amigo
naturalista:
– Efetivamente,
nesta galinha-águia, a galinha parece triunfar.
Aí
ambos se lembraram da importância do sol para os olhos da águia.
Ponderou com razão o naturalista:
– Ela
é filha do sol. Desde pequena aprendeu a sorvê-lo pelos olhos. A
mãe-águia segura o filhote na direção do sol. Acostuma seus olhos
ao resplendor solar. Certamente – asseverou – é por causa disso
que as águias, desde pequenas até a idade adulta, têm os olhos com
as cores típicas do sol, o amarelo brilhante ou o alaranjado forte.
Somente bem mais tarde, à força de olhar para o chão em busca de
presas, seus olhos assumem a cor da terra. Tornam-se castanhos.
O
empalhador completou estas idéias com a seguinte indagação:
– Não
será, por acaso, o sol que irá devolver-lhe a identidade perdida?
Reanimar seu coração adormecido?
O
naturalista confirmou-lhe a ponderação. No dia seguinte, bem cedo,
levantaram-se antes de o sol nascer. O amanhecer estava esplêndido.
A fímbria das montanhas escuras se destacava do fundo roxo do céu.
Do lado do nascente, os primeiros raios douravam o cimo das rochas,
avermelhando-as.
Para
lá rumaram o empalhador e seu amigo naturalista levando a
águia-galinha. Quando chegaram ao alto, o sol despontava, fagueiro,
por detrás das montanhas. Os raios eram doces. A natureza despertava
ressuscitada do langor da noite. O empalhador de aves colocou a
proteção de couro, sustentou fortemente a águia e sob o olhar
confiante do naturalista lhe disse:
– Águia,
você que é amiga das montanhas e filha do sol, eu lhe suplico:
Desperte de seu sono! Revele sua força interior. Reanime seu coração
em contato com o infinito! Abra suas potentes asas. E voe para o
alto!
A
águia mostrou-se surpreendentemente atenta. Parecia voltar a si
depois de um longo esquecimento. Olhou ao redor, viu as montanhas e
estremeceu. Por mais que o empalhador a ajudasse, com movimentos para
cima e para baixo, ela não superava o medo. Ele não conseguia
fazê-la voar.
Então,
a conselho do naturalista, tomou-a firmemente entre as duas mãos e,
por bom espaço de tempo, segurou-a pela cabeça na direção do sol.
Os olhos da águia se iluminaram. Encheram-se do brilho juvenil do
sol, amarelo e alaranjado forte.
– Agora
sim ela vai renascer como águia! O sol vai irromper dentro de sua
alma! – proclamou entusiasmado o empalhador de aves.
Com
voz forte e decidida retomou:
– Águia!
Você nunca deixou de ser águia! Você pertence ao céu e não à
terra.. Mostre agora que você é de fato uma águia. Abra seus
olhos. Beba o sol nascente. Estenda suas asas. Erga-se sobre você
mesma e ganhe as alturas. Águia, voe!
Segurou-a
firmemente pelas pernas emplumadas. Alçou-a para cima. Deu-lhe um
último impulso. Oh, surpresa! A águia ergueu-se, soberba, sobre seu
próprio corpo. Abriu as longas asas titubeantes. Esticou o pescoço
para frente e para cima, como para medir a imensidão do espaço.
Alçou vôo. Voou na direção do sol nascente. Ziguezagueando no
começo, mais firme depois, voou para o alto, sempre para mais alto,
para mais alto ainda, até desaparecer no último horizonte.
Acabara
de irromper plenamente a águia até aqui prisioneira da galinha.
Finalmente livre para voar, e voar como águia resgatada rumo ao
infinito. E assim voou! Voou até fundir-se no azul do firmamento”
***
O
Reencontro da Águia
com a Galinha
Perto
do entardecer, a águia avista o antigo lar. Enquanto prossegue em
vôo firme, pergunta a si mesma:
– Como
estarão minhas irmãs, após tantos anos?
Agora
já vê a campina onde costumavam passar o dia. Vê muitos rostos de
longe, nenhum conhecido.
– Quantas
estórias para contar e para ouvir! – pensa ela, entusiasmada.
Próxima
ao destino, as galinhas começam a fugir assustadas, fazendo seu
usual estardalhaço. A águia estranha a reação. Tão logo pousa
naquele solo plano, usa o seu “kau
kau” na
tentativa de chamar alguma conhecida que esteja nas proximidades. Mas
é em vão. As galinhas se escondem como podem debaixo do casebre,
dentro do galinheiro, ou fogem para a mata fechada.
Nada
de aproximação, exceto a do cuidador daquele galinheiro, que corre
na direção da águia aos berros. A águia também ansiava por
encontrar o homem que a salvara e criara. Embora não reconhecesse
aquele indivíduo em específico, seu coração disparou de alegria
ao ver um humano naquele local.
O
cuidador parou a poucos metros de distância. Agora apenas grita e
move os braços.
– Estranho
comportamento – pensa a águia. Todos sabiam que os humanos eram
quase sempre incompreensíveis, mas a águia nunca tinha visto um
comportamento como aquele. O camponês olha para trás, retorna
alguns passos, pega o objeto mais próximo que encontra e volta a
caminhar em direção à águia. Quando esta pressente que algo não
vai bem, só há tempo para sentir o choque do objeto a jogá-la
longe. Cambaleante, está apenas acordada o suficiente para alçar um
vôo de retirada às pressas.
Empoleirada
em alguma árvore segura, a águia agora reflete sob o episódio que
acabara de suceder, enquanto assiste aos últimos raios do sol
poente.
– O
que foi aquilo? Por que minha chegada causou medo em minhas próprias
irmãs? O que houve para provocar tanta ira dos seres que sempre
cuidavam de nós?
A
águia não sabia que a ira divina também existia naquele
galinheiro. Só tivera contato com a violência humana após
lançar-se ao mundo, em sua nova vida. Do seu antigo lar, tinha
apenas a lembrança de um ser cuidador, protetor, às vezes
caprichoso, mas não a ponto de representar uma ameaça.
Tudo
agora estava confuso para a águia, o que lhe dificultou cair no
sono. Esperava apenas reencontrar a antiga família, mas só
encontrou medo e violência, quase semelhantes aos que se acostumara
a ver nos últimos anos. Entretanto, estava determinada a revisitar,
de um modo ou de outro, o antigo galinheiro onde havia sido criada.
Foram seus últimos pensamentos daquela noite…
A
águia acordou ao ouvir o delicioso cantar do galo, que inundou-lhe a
alma com a nostalgia dos tempos da fazenda. Observou de longe algumas
galinhas e pintinhos se espalhando pelo capim rasteiro. Viu ir-se à
lavoura o homem que ontem lhe dera a vassourada. Foi se aproximando
sem voar, aos poucos e silenciosa, escondida por entre a mata, até o
mais próximo que pode das galinhas. A última coisa que pretendia
era provocar o estardalhaço do dia anterior. Permaneceu a vigiar o
bando, à procura de algum rosto conhecido.
– Onde
estão todas? Nem sequer Nosso Senhor, protetor do galinheiro… –
suspira a águia – Não é possível que estejam todas mortas.
Devem ter partido para algum lugar… Terá algum destino mais duro
obrigado-lhes a fugir? Oh! – indagava.
– Mas
se houvessem partido eu as teria encontrado. Viajo muito e conheço
cada palmo destas terras. Será que estão realmente mortas, então?
Preciso perguntar! Mas… como perguntar? Ontem ficaram com medo, e
ainda fui atacada pelo seu senhor. Será que este é um grupo de
invasoras, que conquistou e dizimou nossa comunidade? Sim, agora
difundem o medo do estrangeiro para todo o grupo, o que legitima o
ataque como aquele que sofri ontem. Aquele
humano só pode ser um dos deuses maus tão comentados pelos animais
da floresta!
A
águia passa da dúvida para um
estado de grande
preocupação
com a própria segurança.
– Será
que corro perigo? Estou muito exposta. Preciso ir para um lugar
seguro e repensar meus planos – cogita a águia, alerta, dando
meia-volta, quando…
– Ei!
– exclama uma galinha próxima, pegando a águia de surpresa.
– Não
me machuque! Eu vou embora! Não diga nada, por favor! – implora a
águia.
– Não
está me reconhecendo? – pergunta a galinha, agora pausadamente.
A
águia suspira e encontra semelhanças entre a galinha e uma de suas
antigas irmãs.
– Minha
nossa, como você mudou! – Exclama a águia, enquanto as duas se
abraçam na alegria do reencontro.
– Aqui
no bando todas dizem que estou bem conservada – ri a galinha –
Acho até que sou a mais velha do galinheiro – comenta orgulhosa.
– Como
assim? Mas se passaram apenas 5 anos…
– Bem…
não contamos o tempo desta maneira mas, se você fala, eu acredito.
Tudo o que sei é que passou-se bastante tempo, mais do que
suficiente para a vida de uma galinha.
– Uau,
e para mim passou tão rápido! – e ambas mantêm o olhar fixo de
contentamento misturado com curiosidade, uma sobre a outra.
– Mas…
– prossegue a águia, agora preocupada – então todas as outras
já morreram? – e uma gota de lágrima ameaça brotar dos seus
olhos.
– Não,
amiga. Não fique triste. De fato, apenas a minoria morreu. O
galinheiro sempre foi abençado por bons cuidadores, que nos protegem
das ratazanas, lagartos e demais predadores. A maioria tem a graça
de ser levada pelo Divino Criador, quando chegada a hora – e a
galinha faz um sinal, como se manifestasse respeito pelo que acabava
de falar.
A
águia acalma-se, aliviada.
– Sabe,
nestes anos em que estive fora, jamais encontrei deuses cuidadores.
Até circulam boatos sobre sua existência. Dizem que os deuses
escolhem alguns indivíduos e os levam embora daquela vida selvagem.
Mas para o resto de nós, além da sobrevivência, vivemos
preocupadas é com a ira divina, que
chega
sem aviso
e destroi a floresta.
Você não faz ideia como os humanos lá fora são vingativos. Lhe
dou razão em agradecer ao Deus misericordioso que cuida deste
galinheiro.
– Não
consigo imaginar um deus vingativo – replica a galinha.
– Ah,
espere até conhecer o mundo exterior, minha querida amiga – e
continua – Ontem mesmo, seu Deus
me agrediu. Até agora não entendi o motivo.
E
a galinha olha para baixo, reflexiva:
– Não
tenho como saber. Se ele o fez, deve ter sido com alguma razão, e
também com amor.
– Se
não foi vingança, o que pode ter sido então? Está na cara que
tentou se vingar por eu ter fugido no passado! Só pode! – conclui
a águia, agora com um misto de revolta e tristeza.
Mas
diante do olhar pensativo da galinha, talvez um pouco constrangida
com o que acabara de ouvir, a águia desconversa:
– Mas
então, me fale sobre você! Como tem sido a vida aqui no galinheiro
durante esse tempo todo? Quais são as novidades?
– Ah,
não sei se você lembra, mas não temos tanta preocupação com o
tempo. Temos um conhecimento razoável do nosso destino. Salvo
exceções, como ser pega por um predador ou acometida por uma
doença, algo que é muito raro neste galinheiro, vivemos o presente,
sabendo que um dia seremos levadas por nosso Bom Cuidador. Sendo
assim, a mudança e as novidades não têm tanta importância para
nós, quanto o sentido que damos ao presente – e continua – O
verdadeiro desconhecido, para nós, é o que acontece após esta
vida, a qual está entregue a Ele. Portanto deixamos nossa partida ao
julgamento deste Bom Deus, Nosso Criador, e com ele ficam nossas
preocupações. Resta-nos, assim, dar o melhor neste momento
transitório denominado Vida, conforme a lógica segundo a qual o bem
que fazemos aqui, colheremos lá do
outro lado.
O futuro e o passado não nos preocupam tanto pois, em essência, se
parecem com o presente. Sendo assim, podemos voltar nossa atenção
para os detalhes do aqui-e-agora.
– Nunca
imaginei o que você acaba de me explicar. Lá na floresta –
comenta a águia – difunde-se a ideia de que animais de granjas são
ignorantes a apreciarem suas vidas mesquinhas, dependentes e sem
perspectivas. Eles dizem que estes animais ciscam, vivem na mesmice,
sem enxergarem mais do que alguns palmos além do próprio focinho.
Ter sido criada no galinheiro me permitiu ver que as coisas não são
bem assim. Sempre achei que os animais selvagens cultivassem certa
inveja dos animais domésticos, dando origem a tal preconceito. Mas
realmente nunca havia pensado nestas questões profundas que agora
você me ensina…
– Temos
ciência destes preconceitos – responde a galinha – Sabe, não
somos tão isoladas como os animais selvagens pensam. Somos visitadas
por inúmeros pássaros e outros bichos, desde habitantes das
redondezas até peregrinos, nômades e migratórios. Através deles,
ficamos conhecendo notícias que circulam nas paragens mais distantes
deste mundo. É claro que também ouvimos os comentários jocosos,
críticos e desprezíveis a nosso respeito.
A
águia refletiu. Supôs que dentre aqueles animais migratórios
estariam algumas das suas caças favoritas. Sentiu vontade de
comentar mas conteve-se, preferindo deixar a interlocutora continuar
o interessante depoimento.
– Aqui
no galinheiro também formamos ideias sobre os animais selvagens,
muitas das quais acredito que sejam preconceituosas. Temos a
tendência de ver estas espécies como sendo individualistas em
demasia. Não sabem viver em comunidade. Fazemos graça da sua
covardia, afinal estes bichos batem em retirada à menor sombra de
nosso cuidador ou de outro humano. Eles
tentam ser livres mas não têm sequer a tranquilidade para habitar
livremente nas paragens civilizadas e ermas onde circulamos
diariamente.
– É
– responde a águia – entendo a razão de ser destas críticas,
embora sejam apenas meias verdades. Do ponto de vista dos bichos da
floresta, não há ilusão de se considerarem mais livres do que os
outros. O que muitos consideram, sim, é viverem uma vida mais
autêntica. Julgam-se mais responsáveis pelo próprio destino. Acham
infantil a forma autoelogiosa com a qual animais domésticos referem
a si mesmos, como se fossem mais civilizados, mais unidos, mais
irmãos. Estes
valores são válidos apenas dentro da segurança dos seus cativeiros
cercados. Os
membros deste galinheiro, por exemplo, não sobreviveriam sequer um
dia se deixados à própria sorte, no mundo lá fora.
– Interessante
– diz a galinha – Como é importante aprendermos com as
diferenças.
– Mas
eu sou a prova viva de que aquilo que dizem na selva também está
errado! Veja, minha irmã, fui capaz de, largada à própria sorte,
voar e cobrir longas distâncias. Enfrentar riscos nos lugares mais
perigosos. E sobrevivi, tanto tempo quanto você! Somos as galinhas
mais antigas deste bando. Cada uma de nós foi capaz de seguir uma
história completamente diferente. Como eu gostaria de poder mostrar
às outras galinhas que é possível usufruir o melhor destes dois
mundos! Eu gostaria tanto… – repetiu a águia, em tom pensativo –
mas elas agora têm medo de mim.
A
galinha escutava o depoimento, agora compadecida, sem saber o que
dizer à amiga.
– Veja
bem… não sei como lhe dizer… mas apesar de termos parte de
nossos destinos em comum, temos diferenças que não devem ser
ignoradas – tentou, a galinha, introduzir um argumento.
– O
que quer dizer?
– Se
observar com cuidado, verá que não temos as mesmas asas possantes
que lhe permitem voar alto. Nossas patas e nosso bico são
extremamente frágeis comparados aos seus. Com nossa estrutura
física, seríamos alvos fáceis dos animais das florestas.
Ficaríamos confinadas, nos escondendo, nos reduzindo à nossa
própria fragilidade.
A
águia, ao comover-se com o depoimento da galinha, esqueceu um pouco
a própria confusão que lhe atormentava naquele exato momento. As
galinhas, por sua dificuldade em voar e fácil adaptação ao
cativeiro, tornaram-se domesticáveis pelo ser humano. Sua aparente
fraqueza
-
pois agora seu destino atrelava-se às vontades humanas
-
era também sua aparente força. Consideradas úteis aos homens,
podem então se reproduzir às milhares, sem correrem risco de
extinção.
A
águia tentava reorganizar os pensamentos. Ela olhava para si própria
de maneira diferente, pela primeira vez. Por ter sido criada junto às
galinhas, ainda pensava que as galinhas eram iguais a ela. Havia
formulado sua experiência de vida a partir da referência mais
familiar, proveniente da primeira metade da vida dentro do
galinheiro:
– Estou
tão confusa…
A
galinha permanecia em silêncio.
– Algumas
coisas começam a fazer sentido… sabe, nunca cheguei a compreender
completamente minha partida do galinheiro. Conforme crescia nesta
granja, percebia aqui e acolá uma certa rejeição por parte das
outras galinhas. Um estranhamento, algo muito difuso, que nunca foi
dito abertamente, mas era sentido nos olhares. Nosso cuidador, de
tempos em tempos, passou a me pegar, afastar-me do bando e fazer
gestos como se quisesse mandar-me embora. Eu resistia, retornava ao
grupo, mas logo ele retornava. A cada retorno, parecia aumentar a
rejeição por parte das demais galinhas. Olhavam-me de lado,
evitavam-me, silenciavam à minha presença. Até que um dia o
cuidador levou-me para tão longe, tão alto, fez-me olhar o sol,
como se me quisesse cegar novamente. Assim, de súbito, fugi para a
floresta – contava a águia, revisitando a própria história numa
procura de compreender o que não havia entendido até então.
– Passei
os dias mais tristes recolhida por entre as árvores, sentindo um
misto de revolta e medo pelo estranho tratamento que me foi
dispensado. Aos poucos, procurei substituir estes sentimentos por
alguma possível culpa. Talvez algum pecado original pudesse dar
lógica àqueles acontecimentos. Mas o que teria eu feito de errado?
Fui criada com todo cuidado pelos mesmos seres que agora me excluíam.
De qualquer maneira, a fome obrigou-me a voar e, desde então,
conformei-me com a possibilidade de precisar carregar para sempre
certas dúvidas.
– Sabe,
irmã – lhe responde a galinha – jamais pensamos que estas coisas
ocorressem assim. As galinhas zelam muito pela vida comunitária, o
que as torna sensíveis contra qualquer coisa que possa
desestabilizar as crenças que as mantêm unidas. Nos consideramos
muito semelhantes umas às outras. Se não cometermos deslizes, como
ser alvo de predadores ou de alguma doença fatal, sabemos que todas
seremos, mais cedo ou mais tarde, escolhidas pelo Criador. É em
função da nossa dedicação, nossa alimentação, reprodução que,
um dia, Ele vem ao nosso encontro. Mas o seu comportamento causou
estranhamento a todas, pois você era a única escolhida pelo Criador
que, em seguida, retornava ao bando. O grupo ficou absolutamente
confuso. As especulações mais comuns eram que você estaria fugindo
de nosso Protetor, sendo rejeitada por Ele ou, ainda, O desafiando.
Como poderia uma de nós burlar o Criador desta maneira? Isso nos
causava muito espanto.
– Por
que não perguntaram? Por que se satisfizeram com tais divagações?
– reclamou a águia.
– Não
sabíamos. Estávamos perplexas. Você não tem ideia como certas
coisas nos causavam confusão. Lembra-se de quando éramos atacadas
pelas águias que viviam na região? Todas corríamos o mais rápido
possível para nos escondermos. Mas você permanecia lá, estática,
movendo suas asas abertas, olhando para aqueles seres assustadores.
Pensávamos que você seria presa fácil se não se escondesse mas,
para nossa total surpresa, as águias nunca tocaram em você.
Acredite, você causava espanto
a todas, e tornou-se um tabu para nós.
– Como
eu poderia correr, com estas garras e estas asas? Caminhar para mim é
uma das tarefas mais desajeitadas que existe! Correr é impossível.
Só o que eu podia fazer era abrir as asas, parecer grande, para quem
sabe fazê-las
recuarem
– retrucou a águia.
– Agora
que você fala, preciso reconhecer, os ataques aéreos aumentaram
após a sua partida. Quem sabe a sua presença no galinheiro
estivesse inibindo a vinda das grandes aves predadoras – ponderou a
galinha, numa tentativa de consolar-lhe os ânimos.
Mas
o fato, sendo um motivo a mais para fomentar a acolhida pelo
galinheiro, alimentou na águia a impressão de estar sendo alvo de
ingratidão de suas antigas companheiras. Jamais pudera imaginar que
inigualável incompreensão pudesse brotar justamente no núcleo da
própria família e do próprio lar.
– Você
não sabe como a indiferença é venenosa – disse a águia –
Confesso que após vários dias tentando me virar na floresta,
percebendo que nenhuma galinha circulava por lá, passei a sentir
pena e até desprezo pelo galinheiro. “Elas que fiquem lá, no seu
mundinho pequeno e fechado, pois merecem umas às outras” era o que
eu pensava.
A
galinha escutava pensativa. Também para ela não estava sendo fácil
processar tudo o que acabara de ouvir.
– Eu
confesso que foi uma surpresa e tanto encontrá-la hoje, escondida no
meio dos arbustos, depois de todo esse tempo – disse ela – Tudo o
que sabíamos é que após várias tentativas, o Criador finalmente a
havia levado em definitivo. Como confiamos nosso destino a Ele,
concluímos que tudo estava bem, de acordo com os desígnios do
Universo, e apenas rezamos pela sua alma, como fazemos para todos
aqueles que são levados pelo Criador. Vou lhe contar mais uma coisa
– e agora a galinha sussurrava ao ouvido da águia – não posso
falar para ninguém, aqui dentro, acerca deste nosso encontro. Isso
balançaria as crenças do grupo. Eu mesma não sei o que pensar,
vendo que você retornou novamente
após
estar nos braços do Criador por uma dúzia de vezes. Como estou
velha e minha hora vai chegar, acho que também vou preferir conviver
com esta dúvida do que sofrer para tentar resolvê-la.
As
duas fizeram uma longa pausa em silêncio. Duas visões de mundo
encontravam, cada uma, o próprio abismo. Não havia para onde
avançar. A galinha parecia destinada a não conseguir extrapolar sua
própria metafísica. A águia parecia destinada a desestruturar a
coesão interna do galinheiro. Ambas estavam separadas pelas próprias
contingências, enquanto unidas pelo coração, e destinadas a
conviver
com insolúveis contradições.
– Agora
entendo por que não compreendia
as águias em meus primeiros meses na floresta – disse a grande
ave, tentando quebrar o gelo – Elas se aproximavam de mim e, claro,
causavam-me medo. Algumas realmente me repeliam para longe. Foi assim
que me distanciei cada vez mais da terra natal. Mas por outro lado,
em outros momentos, eu sentia um desejo de contato. Não sentia
ameaça. Foi assim que, nestes anos todos, em alguns períodos, tive
companhia e filhos, os quais ajudaram a interromper a solidão.
– Mas,
voltando ao assunto – continuou a águia – elas insistiam para
que eu caçasse galinhas. Diziam que os frangos jovens eram os alvos
mais fáceis de todos. Expliquei-lhes que não podia caçar minhas
semelhantes, o que me transformou em motivo de chacota em nas
redondezas. Se um dia ouvir boatos sobre uma águia que pensa ser
galinha, é de mim que estão falando – concluiu jocosa.
Nem
a águia nem a galinha perceberam de imediato o alcance daquelas
últimas palavras. A águia, talvez num gesto inconsciente, estava se
afirmando, como se espera de um ser que experimentava a rejeição.
Aquele não era um simples encontro entre dois membros da mesma
antiga família, era também um encontro entre presa e predador. Com
a diminuição das florestas e o avanço da agricultura, as galinhas
não apenas se tornavam mais comuns como, também, eram das poucas
alternativas de sobrevivência para as águias. A águia e a galinha
poderiam estar condenadas a um destino fratricida, precisando, algum
dia, uma caçar, a outra fugir, para garantirem a própria
sobrevivência.
– Posso
lhe oferecer algo? Você viajou muito, deve ter fome – perguntou a
galinha, tentando ser gentil, ou então para saber se a águia
estava, realmente, faminta.
– Não,
obrigado. Estou bem – respondeu a águia, retribuindo a gentileza,
procurando não causar mais preocupações à amiga que acabava de
lembrar-lhe do tamanho da própria fome. A águia estava, sim,
passando por tempos difíceis. As lavouras e as cidades escasseavam
opções alimentares das aves de rapina. Para evitar galinhas, esta
águia preferia caçar os pombos que proliferavam em toda a região,
uma opção interessante, não fossem os piolhos e parasitas que
traziam consigo.
– Na
verdade queria lhe pedir apenas um favor – continuou – está
difícil me livrar destes piolhos… Você, com seu olhar
microscópico e seu bico preciso, cataria alguns piolhos aqui nas
minhas costas?
– Claro,
com prazer – respondeu a galinha. E a conversa continuou, agora num
tom mais ameno.
– Como
é a sensação de voar? – perguntou a galinha.
– Voar,
para mim deve ser como ciscar, para você. É uma necessidade.
– Aqui
em baixo, nós, galinhas, às vezes pensamos sobre quão maravilhoso
deve ser observar o mundo inteiro de cima. Vocês devem se sentir
grandes, vendo a Terra
toda, tão pequena, lá do alto.
– Sim,
de certa maneira – refletia a águia – mas você sabe, ver as
coisas de maneira pequena é uma experiência de distanciamento. Não
temos muita chance de conversarmos umas com as outras, com os pés no
chão. Estamos sempre em níveis diferentes, a distâncias variáveis
e inconstantes, umas das outras. Sempre admirei a capacidade das
galinhas conversarem no mesmo nível e se entenderem. As águias não
são tão boas de
papo
– e ambas riram deste último comentário.
– A
vida aqui em baixo não gira apenas em torno do entendimento –
replicou a galinha – Nossa existência, relativamente certa e
garantida, nos dá tempo de sobra para pensarmos, discutirmos, nos
entregarmos à socialização, aos prazeres e ao ócio. Com
isso, também surgem conflitos. Entre os frangos mais jovens, então,
você não faz ideia! Alguns, influenciados pelas aves itinerantes de
que lhe falei há pouco, constroem as mais diferentes ideologias. Há
quem defenda que precisamos de uma organização social para superar
a dependência dos humanos. Outros dizem que isso seria utopia, pois
o controle humano tem sido o único capaz de proteger
as
galinhas
do
mesmo estado de barbárie que se observa na vida selvagem. Por sua
vez, há quem procure os meios mais baixos para desacreditar nossa
religião, afirmando que o destino das galinhas e ovos é apenas
alimentar o Criador, que não passa de um animal predador igual aos
outros – e a galinha faz mais um sinal de reverência ao seu
protetor divino.
– Bom
– respondeu a águia – quisera eu ter mais tempo para pensar. Os
animais terrestres acreditam que voamos por puro prazer. Juro para
você que se tivesse alimento de sobra, eu comeria tanto que ficaria
uns três dias sem conseguir levantar vôo. Temos uma rotina diária
muito rígida que envolve procurar alimento, proteger filhotes e
brigar pelo território. Qualquer erro neste planejamento pode ter
consequências fatais. Enfrentamos preocupações demais para
podermos gastar tempo com alguma filosofia. E agora, com o avanço
humano sobre a floresta, nos tornamos cada dia mais competitivas,
mais preocupadas com nossa condição vulnerável perante aqueles
seres onipotentes. Ah, minha cara amiga, os únicos filósofos que
você encontra na floresta são profetas do Fim
do Mundo.
– Nós,
galinhas, neste confinamento, também somos competitivas. Como temos
o Criador para cuidar de nossas vidas, desenvolvemos o hábito de
cuidar da vida das outras. Atentas, como somos, aos detalhes, nos
tornamos vigilantes de nossas companheiras e, quando queremos,
criamos as histórias mais incríveis umas sobre as outras. Assim
vamos escalando na hierarquia do bando. Aprendemos a falar pelas
costas quando queremos colocar a
coletividade
contra o indivíduo. Não raro somos premiadas por essa tarefa e,
assim, obtemos
confiança
do grupo, nos apresentando como pessoas leais. Observe, nas
narrativas internas do galinheiro, não há quem fale em próprio
nome. A negociação é para falar em nome do
grupo.
Não há busca individual da verdade, mas a procura de fabricar uma
verdade compartilhada coletivamente, e moldar-se a ela. Sou velha…
– reflete a galinha – mas quando jovem, procurando meu espaço,
também me envolvi neste tipo de trama. Não se trata apenas de um
duelo maldoso. Por mais que consigamos ser cooperativas, também aqui
há espaços mais e menos privilegiados, que são ocupados conforme a
capacidade de cada uma, neste imbricado jogo de relações sociais do
galinheiro. Acredite, não há nada pior do que ser alvo de galinhas
fofoqueiras
–
concluiu ela.
– Suponho
– ponderou a águia – que com a experiência da idade você tenha
começado a deixar em segundo plano certas coisas pelas quais lutava
antes, na batalha pela vida.
– Certamente.
Para quem não tem mais ambições de ser a mais bela e conservada,
atrair o melhor galo, ganhar o melhor espaço para choca, ciscar nos
melhores lugares, todas estas coisas começam a parecer, de fato,
migalhas, como dizem os selvagens – e continuou – Veja só: com
nosso dom de ver os pormenores das coisas, com nossa capacidade de
reflexão e de imaginação, neste centímetro quadrado – falou,
riscando o chão – posso encontrar o infinito! É claro que eu
também tento imaginar como é a vida das águias, a voarem alto.
Pessoalmente, nunca vi o horizonte. Mal sei o que há para além
destas árvores. Só os conheço por estórias de terceiros. Mas
passei a viver em paz com a realidade das minhas limitações quando
percebi que posso ultrapassar os horizontes aqui mesmo, sem sequer me
mover. Posso olhar tudo ao meu entorno e ver o infinito.
A
galinha continua:
– Exercitando
minha capacidade de observação, adquiri um respeito e admiração
no galinheiro, por outras vias. Elas vêm a mim quando têm dúvidas,
atrás de conselhos ou simplesmente para ouvir estórias. Talvez seja
este o motivo pelo qual o Criador ainda não tenha me levado. Quem
sabe ainda tenho alguma missão a cumprir junto a minhas companheiras
mais jovens?
– No
mínimo – replicou a águia – lhe asseguro que você cumpriu uma
tarefa importante hoje, estando aqui para me encontrar. Como vê, as
águias, com seu invejável senso de direção, também se sentem
perdidas. Você me permitiu ver mais longe. Vim com milhares de
dúvidas sobre mim mesmo, sobre minha história, sobre minhas
origens. Não sei se as esclareci, ou se apenas retornarei para a
vida selvagem com novas dúvidas, mas tenho o sentimento de que sou
um novo ser. Talvez eu me sinta grata em aceitar minha condição de
águia. Certamente me sinto grata de poder ter sido, também,
galinha. Precisarei conviver com o fato de que meu coração, em
parte, ficará aqui no galinheiro. Quem sabe, com a idade, poderei
olhar com mais serenidade para as coisas que não me forem possíveis
resolver.
– A
idade não significa experiência – diz a galinha, em tom
filosófico – Experiência é o que se acumulou antes dela. Seu
corpo de águia e sua história de galinha são de onde você poderá
extrair o melhor do seu ser. São as suas ferramentas, os seus fardos
e também as suas fronteiras. Não posso lhe dizer que vivo em paz
por conhecer
meus limites. Vivo em paz porque aceito os limites que acredito
possuir.
Quando jovem, acreditava não possuir limites; hoje acredito
possui-los. Penso que, no fundo, em ambas situações eu estivesse
iludida, mas procurei fazer o melhor a partir da ilusão que me era
aceitável.
Ser águia ou ser galinha, viver na selva ou na granja, é apenas a
ilusão. Em essência, se ambas condições existem, eis a Vida
dizendo “sim!
há espaço para você no Universo!” Existir
nos torna iguais. Completar a existência com significado é o que
nos torna diferentes.
A
águia não sabia o que fazer com aquelas palavras, mas procurou
guardá-las acreditando serem preciosas. Não havia o que dizer, mas
muito o que pensar em sua viagem de volta. Dirigiu-se ao galinheiro
pensando que talvez encontrasse, lá, um porto seguro após tantos
anos. Pensava ainda que ensinaria às demais galinhas a fazerem como
ela, alçarem vôo, visitarem outros ambientes. Pensava estar
levando, ao galinheiro, todo um mundo de descobertas, mas descobriu o
oposto. Descobriu que seu retorno era impossível e
desestabilizador.
Percebeu que uma galinha, caso tente agir como águia, pode
comprometer a própria existência, tanto quanto uma águia, quando
tenta agir como galinha. A águia não tinha mais o que oferecer ao
galinheiro, e o galinheiro não tinha mais o que oferecer à águia.
A águia nada mais podia esperar do galinheiro e o galinheiro nada
mais podia esperar da águia. Mesmo assim, o encontro inesperado
entre galinha e águia, um encontro provocado por ambas, foi
transformador para as duas. Este contato chocante
significava muito àquela ave. Ela podia, a partir daquele dia,
renascer, descobrindo quem era ao se dar conta do que não poderia
ser.
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