Desdobramento? Experiência
extracorpórea? Saída do corpo? Projeção consciente? Viagem astral?
Afinal de contas, QUAL É O TERMO CORRETO?
A priori, nenhum é correto. Mas fique tranquilo… nenhum é errado também.
Ops! Confundiu tudo?
Vamos lá:
Acreditamos que as palavras são muito
importantes e têm um poder de explicar as coisas. Na verdade,
entretanto, elas não dizem absolutamente nada por si próprias. O seu
poder é de evocar contextos.
Na comunicação, o contexto precisa estar
claro, entre emissor e receptor, para que uma palavra seja bem
empregada. Por isso, com frequência, precisamos definir claramente
o que significa certa palavra, evitando que, através de uma mesma
palavra, as pessoas estejam entendendo coisas diferentes.
Por exemplo, em suas leituras e
conversas, você vai se deparar com as expressões acima (desdobramento,
experiência fora do corpo, projeção consciente, saída extracorpórea,
viagem astral) entre outras, sendo utilizadas de maneira equivalente,
intercambiável. Isso não é um grande problema pois, grosso modo, as pessoas estão se referindo à “mesma coisa” – esta curiosa sensação de estar fora do próprio corpo físico.
Mas é importante refletir sobre a
diferença entre esses termos, o que pode nos revelar mais sobre as
visões de mundo que subsidiam a discussão. Isso nos permite compreender
melhor o debate e as dúvidas que pairam sobre esse interessante assunto,
e percebermos que, embora o termo utilizado pareça não importar, por
trás de cada um existem concepções e entendimentos diferentes – até
mesmo discordantes – sobre o que é a tal “experiência fora do corpo”.
Experiência fora do corpo (EFC)
Você já deve ter percebido que utilizo preferencialmente o termo experiência fora do corpo. Vamos destrinchar essa expressão. Ela nos informa, em primeiro lugar, que há uma “experiência”. O que isso significa?
Por exemplo, neste momento você está
lendo este artigo. Veja que não dependo do seu depoimento para saber
disso. É uma constatação que aceitamos como “objetiva”, ou seja, que
independe do sujeito-observador ou do sujeito-observado. Por mais que
você diga que está batendo um bolo de chocolate ou, por mais que eu
queira acreditar que você está andando de bicicleta, tenho boas razões
para deduzir que você está lendo este artigo.
Por outro lado, algo diferente acontece se eu quiser conhecer a sua experiência
de leitura. Eu precisarei recorrer a você. Talvez possa até supor que
você gostou ou não, observando sua expressão facial. Mas para ter mais
profundidade, precisarei perguntar “- Como foi a sua experiência?”
Compreendeu a diferença? Quando falo de experiência, estou me referindo à
dimensão subjetiva do mundo, ou seja, altamente dependente do sujeito para ser conhecida.
Em
bom português, ninguém pode reclamar se um sujeito informa que se
sentiu saindo do corpo. As pessoas são livres para sentir o que
quiserem. O termo experiência fora do corpo tenta ser mais
“neutro”, aceitar que as pessoas têm a experiência – algo exaustivamente
relatado ao longo da História – sem necessariamente se comprometer com
esta ou aquela teoria explicativa de por que a experiência acontece.
Resulta ser a expressão mais utilizada pelos pesquisadores do assunto
nos periódicos científicos.
Projeção ou desdobramento
O termo projeção tem sido bastante utilizado por autores brasileiros nas últimas 3 décadas, devido à grande popularização do tema a partir da “Projeciologia“. Pode ser acompanhado por diversos qualificativos, a exemplo de: projeção astral, projeção fora do corpo, projeção da consciência, projeção lúcida. Esta noção ganhou popularidade a partir do clássico The Projection of the Astral Body, escrito em parceria entre o projetor Sylvan Muldoon e o pesquisador Hereward Carrington, em 1929, nos EUA.1
Como você pode imaginar, este termo foi
cunhado a partir da ideia de algo que “se projeta” para fora do corpo.
Muldoon deixa clara sua preferência por esta explicação, fundamentado
pela observação de suas próprias experiências extracorpóreas e,
naturalmente, também compartilhada por outros autores espiritualistas
anteriores.
Esta expressão se alinha a outra, o desdobramento, proveniente do Francês, dédoublement, muito
utilizado pela Metapsíquica nos séculos XIX e XX e, consequentemente,
muito influente sobre o Espiritismo. Ambos, apesar das diferenças, giram
em torno da ideia de um segundo corpo (“corpo astral” ou “duplo
etérico”) que serve como veículo, desmembrando-se do corpo físico e
carregando, consigo, o ser (espírito, essência).
Viagem astral
Por fim, a tão consagrada qualificação “astral”. Por trás desta palavra se encontra a noção de um lugar, no além, entre os astros, ou mais correntemente, uma “dimensão” para onde a pessoa estaria viajando durante uma saída do corpo.
Derivado
do termo “corpo astral”, expressão antiga e já utilizada, por exemplo,
em 1929, no próprio livro de Muldoon, esta palavra expressa a noção de
que existe um outro plano ou mundo, um “universo paralelo” para onde o
viajante extracorpóreo se dirige. Na verdade são tentativas de explicar
por que, numa experiência fora do corpo, certas leis da física parecem
ser violadas, como atravessar paredes, portas e outros sólidos, ver mas
não ser visto, ouvir mas não ser ouvido, viajar por longas distâncias a
velocidades infinitas, sentir o tempo passar de modo anômalo, perceber
acontecimentos premonitórios etc.
A título de curiosidade, uma procura rápida no mecanismo de busca Google Trends revelou que, de longe, as expressões mais procuradas, no Brasil, envolvem o elemento astral
(“viagem astral”, “projeção astral”, “desdobramento astral” nesta
ordem), seguidas por “desdobramento espiritual” e, quase
imperceptivelmente, “projeção lúcida”. Notamos também um crescimento na
procura pela expressão “projeção astral” e um declínio nas demais.
Outros termos (projeção consciente,
experiência fora do corpo, projeção consciencial, não tiveram volume de
busca suficiente para gerar o gráfico. Por outro lado, a situação se
inverte no Google Acadêmico,
onde o termo “experiência fora do corpo” é o mais procurado. Observo,
também, que mesmo grupos mais antigos e tradicionais ligados à
Projeciologia e que, portanto, utilizam mais o termo “projeção”,
preferem utilizar o termo “experiência fora do corpo” em seus materais
promocionais, possivelmente por ser um termo mais didático e
compreensível.
Discussão
Tudo levado em consideração, temos, em resumo: (1) um evento, que é a sensação de estar fora do corpo e as diversas ocorrências e “aventuras” relatadas por quem a vivencia; (2) a explicação de que alguma coisa, ente ou substância, de fato sai do corpo e carrega, consigo, o indivíduo e; (3) a explicação de que se vai para algum lugar, plano, dimensão, universo paralelo, ambiente diferente do que entendemos como “mundo físico”.
Particularmente não defendo que as
pessoas tomem por objetivo um fenômeno que é constatado de maneira
subjetiva. Por isso, prefiro utilizar o termo experiência fora do corpo. Quando
falo que tive uma “experiência”, estou falando de mim. Demonstro
aceitar que, por ser uma experiência pessoal, não pretendo que ela sirva
como evidência objetiva de que eu saí do corpo, ou que saí portando
algum “veículo”, ou que fui para alguma “universo” diferente. Faço da experiência subjetiva um recurso para investigar a mim mesmo. Para mim, isto é o tão buscado autoconhecimento.2
Observo, com frequência, que os
projetores não gostam que nos refiramos às suas experiências como
subjetivas. Este receio é fruto da cultura materialista em que todos nós
estamos mergulhados. A ideia de “objetividade” exerce um poder muito
forte em nosso imaginário. Não por acaso, as “ciências exatas” têm
grande influência sobre as “ciências humanas”. Quando ouvimos que algo é
“subjetivo”, ficamos na defensiva, acreditando que estão nos
considerando de loucos, fantasiosos ou indignos de crédito. Somos todos
vítimas desse tabu.
Se digo, por exemplo, estou feliz, estou triste, estou surpreso, estou motivado, tratam-se de experiências subjetivas. Elas não são “menos reais” por serem subjetivas. Elas não são “menos verdadeiras” por serem “coisas da minha cabeça”.
Mas se digo que saí do corpo, fico com tanto medo de ser considerado
louco que logo quero convencer a todos que a experiência não era
subjetiva, que foi um fenômeno objetivo. Digo que “foi real!”.
Observe que, quando faço isso, estou impregnado do mesmo materialismo
que critico nos outros. Continuo perpetuando a crença – mais popular do
que científica – de que as coisas precisam ser objetivas – precisam estar fora de mim! – para ganhar o estatuto de “realidade” ou de “verdade”.
Presos por estas armadilhas de linguagem – a confusão que fazemos entre realidade, objetividade, veracidade, subjetividade, normalidade e saúde
– buscamos algumas saídas. Tentamos resolver as coisas dizendo que “as
pessoas precisam passar pela experiência” para aceitarem. Ao dizermos
isso, confirmamos a ideia de que se trata de algo cuja constatação é
subjetiva. Este é mais um motivo por que prefiro o termo experiência ao invés de projeção ou viagem astral. Enquanto
não se chega a um acordo sobre a questão da “projeção” ou da “outra
dimensão”, pelo menos concorda-se que estamos falando de
uma experiência.
Resumo
Termos como experiência fora do corpo (EFC), desdobramento, projeção consciente, viagem astral, costumam ser utilizados de maneira intercambiável para se referir a um mesmo acontecimento. Entretanto, por trás de cada um deles, existe um corpo teórico ou visão de mundo que importa conhecer. A EFC se refere à dimensão experiencial, vivencial, do fenômeno, e tende a ser mais neutra quanto a explicações sobre “por que” ou “o que” acontece, objetivamente. A ideia de projeção e desdobramento se originam da noção de que há alguma coisa que, de fato, sai do corpo. O termo astral é muito utilizado para respaldar a ideia de um outro mundo ou lugar para onde o indivíduo vai quando sai do corpo.
Notas
- Traduzida para o Português na década de 1960, sob o título de “A Projeção do Corpo Astral”.
- Para citar como exemplo, no Journal of Exceptional Experiences and Psychology, 2013, Vol. 1, n. 2, p. 39, escrevi um artigo intitulado “My First Out-of-Body Experience”, onde utilizo minhas primeiras experiências fora do corpo como recurso para uma investigação autobiográfica.



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