No primeiro artigo desta série introduzimos o assunto sobre o Relatório Feilding (1908) e
apresentamos as críticas principais de Richard Wiseman (1992) ao mesmo,
procurando defender que, embora os experimentos de Feilding, Carrington
e Baggally com a médium Eusapia Palladino tivessem um bom controle
contra fraudes promovidas por ela, seu controle (ou relatório) não foi
satisfatório no sentido de descartar a hipótese de um cúmplice
auxiliando Palladino ocultamente.
No semestre seguinte do mesmo ano, dois parapsicólogos – a advogada Mary Rose Barrington1 e o psicólogo David Fontana2 – escreveram em resposta às críticas de Wiseman.
Barrington levanta pontos importantes quanto ao contexto em que a pesquisa foi realizada. Já havia, conforme o próprio Relatório levanta3, uma
história de mais de 20 anos de pesquisas efetuadas com Palladino pelos
mais diversos investigadores, acumulando um testemunho majoritariamente
favorável à autenticidade de seus fenômenos. Já havia uma boa quantidade
de experimentos que excluíam claramente a possibilidade de Palladino
estar atuando com ajuda de um cúmplice. Já havia alguns pontos pacíficos
que não mais eram necessários ser mencionados como “vasculhar um quarto
ou uma cabine para se certificar de que ninguém estivesse lá [tanto
quanto] nos dizer que os míopes entre eles estavam de óculos”4.
A contribuição que esses 3 pesquisadores consideraram necessário trazer
aos cientistas da época, era o detalhamento sobre os controles de mãos e
pés da médium, bem como da iluminação, características que consideravam
pouco detalhadas em experimentos anteriores. E esta era também a
especialidade daqueles pesquisadores, dois dos quais eram versados em
truques de mágica.
Importa notar que o Relatório Feilding recebeu críticas na época
em que foi publicado. Entretanto, elas se concentram na ideia de que
Palladino, de alguma forma, conseguiu se libertar dos controles dos
pesquisadores para fazer seus truques. Mesmo os críticos pareciam estar
convencidos de que não era plausível que a equipe
Carrington-Feilding-Baggally tivesse cometido erros tão grosseiros como
não identificar um alçapão no teto do quarto, não se certificar que as
portas estavam trancadas e que um cúmplice não estaria escondido em
algum guarda-roupas, ou não perceber alguém atrás das cortinas
manipulando fios e hastes para mover os objetos. Wiseman estava ciente
destas críticas5
mas concentrou-se em torno de assuntos que os críticos da época
aparentemente já tinham descartado, até mesmo pela possibilidade de
manterem comunicação informal com os pesquisadores e resolver tais
dúvidas sem a necessidade de publicar um paper.
O primeiro problema com a hipótese do cúmplice está em seus fundamentos. Palladino
já havia produzido, em outras sessões experimentais, fenômenos como os
presenciados em Nápoles, sob condições que excluíam a possibilidade de
um cúmplice. Suponhamos que esta médium seja uma farsante. Por que ela
buscaria, desta vez, um cúmplice, para fazer o que conseguiria fazer
sozinha? Wiseman justifica que mágicos gostam de variar seus métodos.
Entretanto, não estamos falando em alternar dois métodos semelhantes,
mas trocar um método que funcionara no passado por outro extremamente trabalhoso e arriscado.
Em resumo, Eusápia precisaria de muita sorte para que seu cúmplice não
fosse identificado, nas sessões de Nápoles, colocando em grande risco à
fama adquirida ao longo de duas décadas. Se, ao invés disso, ela optasse
por trabalhar sozinha, e aguardasse deslizes dos pesquisadores para
fazer seus truques, a médium teria muito menos a perder. Caso o controle
fosse muito forte, ela poderia simplesmente não produzir fenômenos,
alegar que a “energia vital” não estava fluindo ou que os pesquisadores
estavam tirando sua concentração, etc. Confira a seguir o volume de
pré-requisitos que precisariam ser necessários para que a hipótese do
cúmplice se realizasse:
- Teria sido necessário adulterar a porta interna antes do início das sessões. Como? O time de Eusápia precisaria descobrir (se já estivesse definido), ou adivinhar (se não estivesse definido, o que é mais provável), qual quarto seria utilizado para a pesquisa, em um hotel de 5 andares, e então se hospedar nele um dia antes e fazer o trabalho. Ou precisaria, inclusive, adivinhar o hotel, já que não há indícios de que Palladino sabia previamente qual hotel seria utilizado para o experimento. Se os quartos fossem escolhidos apenas na chegada dos hóspedes, como é comum na baixa temporada (novembro), o cúmplice de Eusápia precisaria, em uma ou duas horas, conseguir uma chave do quarto (roubando? subornando? sem deixar nenhum vestígio?), entrar sorrateiramente enquanto os pesquisadores estivessem tomando café com a médium, e fazer um painel falso na porta de madeira maciça, que ficasse imperceptível para os pesquisadores, que ali se hospedariam durante 11 dias.
- Além disso, o marceneiro de Wiseman contou com muita sorte. Inicialmente, foram apenas dois os quartos alugados (de Feilding e de Carrington), totalizando 3 portas de passagem interna. Como ele saberia em qual das portas precisaria fazer o painel falso? Possivelmente o marceneiro escolheria a porta que liga os dois quartos, contando com uma chance de 50% de acerto (ou 25%, caso o lado para o qual o painel abrisse fosse relevante). E teria errado, pois a porta na qual o painel precisaria ter sido feito era a porta que ligava o quarto de Feilding ao quarto até então desocupado, que receberia Baggally nos próximos dias. Ou o marceineiro fez paineis falsos nas três portas? Ao menos Wiseman não chega ao ponto de sugerir isso. Wiseman cita6 – embora não dê relevância para – o fato de que o gabinete da sessão tinha sido preparado pelos pesquisadores, antes da chegada de Eusápia. Todo esse extenso trabalho citado até aqui teria ido por água abaixo caso os pesquisadores tivessem escolhido outro quarto, ou o outro canto do quarto, para fazer o experimento.
- O quarto adjacente ao experimento precisaria ficar desocupado. Imagine que o marceineiro de Wiseman soubesse, inexplicavelmente, qual das 3 portas precisaria ser adulterada. Sua primeira atitude seria reservar aquele quarto, para que o cúmplice pudesse atuar durante os próximos 11 dias a partir de um quarto vazio. Afinal de contas, como o cúmplice poderia fazer truques, entre 21h e meia-noite durante 11 dias, a partir de um quarto ocupado por hóspedes? Então o marceneiro chegaria na recepção e solicitaria a reserva daquele quarto específico (e que possivelmente já estava reservado para Baggally). Isso não soaria estranho? Talvez a própria equipe do hotel, sabendo dos experimentos, informaria aos pesquisadores que alguém tentara se hospedar naquele quarto. Não ficaria, o marceneiro, preocupado em fazer um fundo falso em um quarto que receberia hóspedes?
- Se todos esses golpes de sorte dessem certos e, além disso, o trabalho de adulteração fosse bem-sucedido, sem deixar qualquer pista ao longo dos 11 dias (e ao longo da História), a equipe de Palladino ainda dependeria de outro imenso golpe de sorte: Baggally não poderia travar sua porta por dentro! Isso mesmo. As portas possuem travas, e os pesquisadores mencionam ter travado as portas que davam acesso direto ao quarto de Feilding (onde acontecia a sessão). Embora não mencionem se travaram ou não as portas dos outros quartos, toda fraude de Palladino iria por água abaixo se, em apenas um dos onze dias, Baggally travasse sua porta. Qual equipe de mágica entregaria sua sorte a tamanho acaso, depois do imenso trabalho descrito acima?
- Portanto, eles precisavam ter um alçapão!
Carrington, ao descrever o quarto onde ocorreriam as sessões, menciona
que as paredes e o chão eram de alvenaria, e que o teto não continha
alçapões.
Wiseman sabe que Carrington já havia escrito, em outro livro, sobre alçapões falsos utilizados por ilusionistas. Entretanto, Wiseman reclama que Carrington não menciona se os quartos ao lado também não tinham alçapões (assim como não menciona se também eram de alvenaria – pois ele está preocupado em descrever o quarto da sessão!). Mas podemos esperar, pelo bom senso, que um hotel como aquele teria os quartos iguais. Podemos nos perguntar, ainda, por que um hotel construiría um alçapão que desse acesso de um dos seus quartos ao telhado? E, por fim, a sortuda equipe de Palladino precisaria ter sido premiada justamente com o quarto que possuía este alçapão… - A porta permaneceria adulterada ao final dos experimentos, deixando a administração do hotel furiosa, fato que chegaria ao conhecimento dos pesquisadores. Wiseman sugere que a equipe de Palladino se hospedou no quarto logo após o evento e forjou um acidente com a porta, fazendo com que o hotel a trocasse, sem suspeitar. Curioso acidente este que resulta é uma porta de madeira maciça quebrada e um painel falso…
Em resumo, as suposições de Wiseman
dependiam de pré-requisitos bastante implausíveis. São pré-requisitos
que nos fazem questionar se a suposta equipe de Palladino sequer
começaria a fazer tamanho trabalho de fraude, um trabalho arriscado que
dependia de golpes de sorte e condições que não estavam sob o controle
dos fraudadores, antes, durante e depois do experimento. Trata-se de um
risco muito grande para uma médium que já tinha obtido fama suficiente e
poderia simplesmente dar uma desculpa para não participar, se achasse
que suas supostas fraudes seriam descobertas.
Nos próximos artigos falarei sobre os
fenômenos observados, as críticas feitas a estes fenômenos por autores
contemporâneos, e as críticas a estas críticas.
Última atualização: 20 out 2016
Notas
- Barrington, M. R. Palladino and the invisible man who never was (1992) JSPR 58, 324-340.
- Fontana, D. The Feilding Report and the determined critic (1992) JSPR 58, 341-350.
- Feilding, E., Baggally, W. W. and Carrington, H. (1909) Report on a series of sittings with Eusapia Palladino. ProcSPR 23, 309-569. pp 311-318
- Barrington, op. cit., p. 325)
- Wiseman , R. (1992). The Feilding Report: A reconsideration. Journal of the Society for Psychical Research, 58 (826), 129-152.
- Wiseman, R. (1992). The Feilding Report: A reconsideration. Journal of the Society for Psychical Research, 58 (826), p. 137




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