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sábado, 13 de maio de 2017

De que trata o autoconhecimento?

Autoconhecimento é uma palavra muito utilizada pelos autores e terapeutas diversos. É prima de outra palavra, a autoajuda, que recebe críticas de vários lados mas ainda aparece como palavra-chave nas prateleiras de qualquer livraria.

Qual o domínio do autoconhecimento? 

Para compreendermos determinado tema de discussão precisamos definir qual é o seu domínio, ou seja, sobre que assuntos ele trata. O domínio da Física, por exemplo, são as forças. O domínio da Química são as substâncias ou a matéria. O domínio da Biologia é a vida. O domínio da Psicologia é a mente. O domínio da Economia é a riqueza. O domínio das Ciências Socias são os fenômenos sociais. O domínio da Antropologia é a cultura, ou seja, o fenômeno humano subjetivo. E assim por diante.

 O domínio psicológico

Sob esse termo se falam comumente de assuntos psicológicos. Comentei num artigo anterior que autoconhecimento é uma palavra muito usada para evitar atritos com os profissionais da Psicologia. A Psicologia enquanto campo de conhecimento é de domínio público. Qualquer um, eu e você, podemos discuti-la e escrever sobre ela. Entretanto, a Psicologia também é uma profissão regulamentada, portanto, o título de psicólogo é restrito a formação acadêmica específica e certas técnicas são restritas a este profissional. Não é proibido a um escritor ou terapeuta falar sobre a Psicologia sem ter formação na área, ou mesmo estudar esta ciência e utilizá-la como subsídio em suas práticas e discussões. Ocorre que isso pode gerar incômodos entre as áreas. Mesmo que não gere a todos, se gerar a UM somente, pode ser suficiente para uma "dor de cabeça". Um belo dia, o terapeuta ou professor é acusado de estar "se passando por psicólogo" e, dependendo da força de quem acusa, uma ação penal pode gerar estragos. Psicólogos que gostariam de agregar práticas "alternativas" em seu atendimento, como Reiki, Tarô, Astrologia, Florais, sabem ao que me refiro. A frase "quem não deve, não teme" só seria verdadeira se nossos juízes e meios de comunicação fossem imparciais e se as leis fossem iguais para todos. Ou seja, autoconhecimento é, entre outras coisas, uma palavra diplomática com a qual não-psicólogos falam de questões psicológicas.

O domínio espiritual

Sob a alcunha de autoconhecimento também são tratadas as ideias transcentais, aquelas que nos ligam ao mistério, ao desconhecido, conhecimentos "ocultos" ou "esotéricos". Neste sentido, o autoconhecimento é um campo aberto à experimentação, onde cada autor ou terapeuta goza de ampla liberdade para estudar, investigar, divulgar, "pregar". Essa liberdade naturalmente permite a entrada de profissionais de formação questionável. Mas permite dar vazão e expressão a uma dimensão humana que ainda é vista com bastante desconfiança pelas escolas acadêmicas e profissionais reconhecidas. O autoconhecimento preenche uma função que tradicionalmente tem sido desempenhada pelas religiões - conectar a vida humana com algum sentido maior do que ela própria. Ligar-se a um significado maior é essencial para a saúde e algo que se perde numa sociedade onde predomina o discurso de que nosso corpo e nossa mente são uma máquina, cujo propósito é perpetuar-se, criadas por acaso em um universo sem propósito e inseridas numa sociedade na qual a cidadania está condicionada à capacidade de produzir lucro para pessoas jurídicas abstratas. Em outras palavras, o autoconhecimento procura dar sentido a vidas percebidas como sem sentido. É uma área que entra, consequentemente, nos campos filosóficos da Metafísica e da Ética.

Como se investiga o autoconhecimento?

Para se ter um campo de estudo não basta definir sobre o que ele trata (o domínio). É preciso também entrarmos no terreno de como trabalhamos nele. Se não, o autoconhecimento se torna um conjunto de ideias estáticas que entendemos mas não avaliamos. O leitor pode observar que em muitos trabalhos se fala de autoconhecimento e não se trata do básico sobre ele: o que é e como se o alcança. Autoconhecimento se torna um rótulo, uma forma de "gourmetizar" ideias ao invés de torná-la uma área de estudo. Não sendo um campo "acadêmico", acaba não tendo um currículo mínimo, fazendo com que cada escritor ou terapeuta crie seu próprio caminho e muitas vezes não cheguem a conversar entre si, por falta de uma base comum. Quem acaba perdendo com isso é o aprendiz, que fica limitado à opção de aceitar ou não o que o autor fala. Como o autor não costuma apresentar o método ou caminho pelo qual chegou a determinada verdade, o aprendiz fica desamparado neste difícil processo de poder avaliar a sua veracidade. Socialmente, é mais conveniente aceitar do que duvidar, pois a opção de aceitação facilita receber apoio do grupo. Consequentemente, a dinâmica na qual se vai absorvendo as afirmações pode acabar sendo uma dinâmica doutrinária, onde o leitor escolhe se quer ser um seguidor ou permanecer na condição em que está.

É sobre os métodos de autoconhecimento que falarei no próximo artigo.

Imagens: Infomev e Baloo

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