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segunda-feira, 29 de maio de 2017

Hipnose

Hipnose costuma ser o carro-chefe da parapsicologia clínica e das práticas terapêuticas holísticas voltadas à mente. A hipnose está presente em diversos métodos terapêuticos e é usada por várias linhas. Por ser uma prática bastante versátil, cada terapeuta acabará desenvolvendo seu próprio estilo de trabalho - isso ocorre em qualquer terapia e, certamente, nas psicoterapias. Muitas vezes, até para dar mais peso à divulgação, o terapeuta passa a chamar seu estilo de terapia de "método tal". Estou generalizando mas acredito que há tantos métodos quanto há terapeutas, pelo menos entre os mais experientes.

Hipnose é qualquer procedimento que busque induzir outra pessoa a um estado de consciência diferente do seu habitual. Eventualmente, considera-se também o conceito de "auto-hipnose" como o procedimento feito pela própria pessoa para atingir esse tipo de modificação de consciência, mas falarei sobre isso em uma próxima postagem.
Observe que o conceito faz com que muita coisa possa ser considerada como hipnose. Se pensarmos bem, estamos sempre interferindo no estado de consciência uns dos outros, voluntária ou involuntariamente. Acabamos convencionando chamar de hipnose apenas as alterações mais profundas mas o fato é que não há uma fronteira demarcando onde termina o "superficial" e começa o "profundo". Um problema adicional é que cada pessoa reage diferente a um mesmo método. Alguns entram em transe profundo, outros não demonstram qualquer alteração. Alguns reagem melhor a métodos x, outros a métodos y. Então fica difícil definir a hipnose pelo seu efeito e acabamos definindo-a pela intenção indutora - como é o caso da definição acima -, não pelo resultado.
Como consequência disso, o fato de um terapeuta "fazer hipnose" em você, não significa que você irá atingir uma condição de consciência diferente ou ambicionada por vocês. A hipnose é uma interação, portanto dependerá em parte da experiência ou habilidade do terapeuta e em parte da sua predisposição a ser hipnotizado. E cada uma dessas duas variáveis pode ser desdobrada em várias características.

Controle
Meu estilo de trabalho é um pouco diferente do que normalmente é esperado pelos pacientes ou anunciado por muitos hipnólogos. Em primeiro lugar, é muito esperado que a qualidade do hipnotizador seja diretamente proporcional ao controle que ele tem sobre hipnotizando. Entretanto, não me balizo pela questão do controle, pois estamos em um contexto de terapia e não de palco. A psicoterapia pressupõe dar as condições ao paciente desenvolver suas próprias forças para ter autonomia na vida. O controle do terapeuta sobre o paciente vai no caminho contrário, ou seja, de uma dependência deste em relação àquele. Portanto, busco o caminho oposto, no qual procuro "induzir" o mínimo e apenas "facilitar" ao paciente entrar em contato com o que seja seu, algo não determinado por mim.

Objetivos
Um outro fator que considero com muito cuidado são os objetivos da hipnose. A hipnose de palco pode ser um fim em si mesmo mas a hipnose terapêutica, jamais. A hipnose terapêutica é um meio, então primeiro precisamos verificar (1) quais são os fins que trazem o paciente à terapia e (2) se a hipnose pode contribuir com esses fins. Os fins da terapia, grosso modo, giram em torno da melhoria da qualidade de vida do paciente. Esta melhoria pode ser na mitigação ou eliminação de certo sofrimento. Pode ser na conquista de determinados objetivos. Eventualmente pode ser, simplesmente, "experimentar a hipnose". Tudo isso vai influenciar qual procedimento terapêutico será usado. Definir que a hipnose será usada antes de conhecer os problemas e objetivos da terapia é quase como definir um remédio antes de fazer a análise clínica.

Comprometimento
Não cabe a mim julgar as motivações que trazem o paciente à terapia - desde que estejam dentro do bom senso e da ética profissional. Mas informo que o sucesso da terapia será proporcional ao comprometimento psicológico do paciente. Esse comprometimento nem sempre é o que conscientemente queremos. Aprendemos a jogar problemas para baixo do tapete, dissociando-nos deles como forma de minimizar o sofrimento sentido. No nível consciente, o paciente pode querer ser hipnotizado "só de curiosidade". Mas se há um sofrimento subjacente reprimido, ele pode vir à tona durante o processo. Por isso preciso interagir mais com o paciente antes para podermos chegar a certos acordos. Preciso ter sensibilidade para saber o quanto o paciente quer ou não "abrir certas portas". Por um lado, não posso invadir o espaço do paciente sem a sua autorização; por outro, não posso ser tão superficial a ponto de não conduzir a qualquer tipo de autodescoberta. Na interação o paciente pode se sentir mais confiante e dizer, por exemplo, que quer ser hipnotizado para entender melhor um conflito familiar. Ou pode ficar no objetivo de ser hipnotizado por curiosidade. Para mim, como terapeuta, ambos objetivos são legítimos, e o roteiro hipnótico será elaborado a partir dessas definições iniciais.

Imediatismo
Observo também que acabamos sendo vítimas da nossa cultura, que quer coisas de maneira cada vez mais imediata. Com o tempo a sabedoria ficará reservada aos artistas, artesãos e desportistas - os que resistirem à pressão imediatista da indústria de massa -, pois eles são obrigados a terem paciência enquanto desenvolvem suas habilidades e suas obras. Entre os demais, contudo, queremos resultados "para ontem" a ponto de desrespeitarmos os tempos mais naturais das coisas. Isso também ocorre na psicoterapia, onde cada vez mais pacientes esperam resultados imediatos e terapeutas buscam soluções imediatas.
Vejo a terapia como algo tão gradual quanto aprender a tocar piano, ou tão gradual como a própria vida. Para mim é importante que, após algumas poucas sessões, o paciente já observe melhoras, sentindo que a terapia não é simples "enrolação". Mas deixo claro que as coisas tem seus tempos e o desenvolvimento não está no fim mas no caminho, como dizem os andarilhos.

Consciência
Uso a hipnose como um recurso para se chegar a outro estado de consciência. Mas… para quê chegar em outro estado de consciência? Essa é uma pergunta que nem todo mundo faz. Parto da premissa que a consciência é uma forma de perceber a existência. Através dela, concentramos a atenção em certas coisas e nos dissociamos de outras. Vamos nos adaptando a uma forma de existência que seja funcional. Muitos processos mentais, desejos, sofrimentos, representações vão sendo deixados em segundo plano, conforme nosso consciente escolhe o que é certo/errado, prioritário/secundário. Entretanto, estes processos que ficam "de lado", fora do plano consciente, não deixam de fazer parte da nossa vida. Só que eles nos influenciam em um nível não percebido, não consciente, subconsciente. 
Procuro, na hipnose, um estado semelhante ao dos sonhos, com a redução de processos conscientes para chegar a um contato maior com conteúdos do plano subconsciente. Neste sentido, estamos entrando em uma floresta escura. A predisposição do paciente para seguir adiante é a predisposição para encontrar o inesperado. Eventualmente, o inesperado lhe provoca reações emocionais, mostrando aspectos que são difíceis de enfrentar. Meu papel é de transmitir confiança ao paciente. Nessa interação vamos até onde o paciente considerar suficiente. Na interação, também observo como o paciente reage na prática a determinada dificuldade, o que é muito mais esclarecedor do que simplesmente um relato. Nesse contato, aliado à sensibilidade do terapeuta, o paciente vai aprendendo sobre si mesmo, sobre seus problemas e identificando forças e estratégias de enfrentamento.

E você, tem alguma dúvida ou questão sobre a hipnose? Deixe aqui seus comentários.
 Imagens: TGDaily, EmazeCoachingLab, Dep.Química e Sociedade e Fractal Enlightenment.

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